• Renan Vicente da Silva

Uma carta para Sociedade Humana em consumo de si

Atualizado: Mar 23


Querida, Sociedade Humana 


Venho por meio desta singela carta expressar minha tristeza em escrever para ti, ou talvez, para nós, pois enquanto um corpo negro, tento fazer parte dessa sociedade ao vestir diariamente minha máscara branca. Na perspectiva de existir em você, já que não possuo lembranças das minhas ancestralidades, das minhas raízes africanas e indígenas. Uma violência simbólica que promove um trauma colonial incurável e irremediável. Mas sinto um curar ao autoafirmar minha negritude em todos os espaços possíveis e impossíveis. No hoje, mais uma vez, tentamos sobreviver no mundo corroído por uma pandemia produzida nas suas entranhas gananciosas pelo dinheiro, uma doença crônica que te corrói. 


Bom, o colapso climático já nos alcançou, chegamos ao ponto de não retorno, ao limite do projeto insustentável de capitalismo construído em ti. Sua essência está sendo queimada e derrubada conjuntamente com a floresta Amazônica, o Pantanal, a Mata Atlântica. Não existe futuro para você. Não adianta, a elite branca que faz parte de você, ir para Nova Zelândia e edificar bunkers para se protegerem. Nos consumimos em tanto consumismo. É necessário uma aceitação sua diante dessa indigesta verdade, a qual escrevo com uma angústia e melancolia no coração, porém é minha responsabilidade afetiva informar, que para mim: é o fim de ti. Não conseguimos mais sobreviver em um sistema de morte. Cada dia enxergo com mais materialidade essa finitude, em nome do poder pelo dinheiro, nos destruímos. Além de levarmos conosco para os confins da morte todo um ecossistema. Essa responsabilidade é minha, é sua, é da supremacia branca que se considera eterna e intocável. Não vai existir amanhã, chegamos ao ponto máximo de nossa existência. Precisamos reconhecer nosso fim, para despertar frente as ilusões da sociedade econômica de mercado, a qual vende um falso futuro. Como você se sente perante sua morte e de todos os outros seres vivos?


Essa escrita é, principalmente, para provocar sua capacidade imaginativa, aqui e agora. De imaginar sua ausência no planeta que consumiste até não sobrar mais nada, sem nenhum recurso natural para continuar sobrevivendo. Desse modo, parafraseando Friedrich Nietzsche, filósofo alemão, conhecido pela citação, "Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos!". Assim, ouso afirmar para você, A humanidade está morta! A humanidade continua morta! E nós a matamos! Precisas declarar sua morte para desabrochar uma outra possibilidade de existência. Não conseguimos mais respirar em você, o novo coronavírus foi a asfixia final. 


Nesse sentido, devemos pensar e repensar sobre os limites que estamos alcançando em ti. Não existe mais muito tempo, contudo, quem sofrerá primeiro serão os mais pobres em dinheiro, o apartheid climático já está acontecendo. O que iremos fazer diante do seu colapso? Para mim, colocar nossos corpos para o ato final. Ao lado dos povos originários, os guardiões da floresta, que nos protegeram até esse momento. Desprender um último sorriso afetuoso no encontro da vida que ainda resta em você. E pedir perdão, enquanto uma responsabilidade coletiva, para as futuras gerações pelo nosso falhar na sua concepção, e também a todos os seres não-humanos do planeta Terra. Peço perdão pela minha pequena, mas existente contribuição em seu consumo destrutivo. Por fim, acredito que devemos acolher a morte como uma potência transformadora em nossos últimos suspiros.


Ipiabas, 30 de outubro de 2020