• Renan Vicente da Silva

Uma carta para imaginária cidade das vidas perdidas

Atualizado: Nov 4


Pássaro é fotografado durante enterro no cemitério Parque Taruma, em Manaus — Foto: Bruno Kelly/Reuters

Querida, Barra do Piraí

Venho por meio desta singela carta expressar minha tristeza em estar tecendo algumas palavras escritas para contigo. São tempos tão incertos e inseguros que atravessamos nessa pandemia sem precedentes para nossa sociedade humana. No agora, estamos tentando suportar um sofrimento diante do número de mortos de mais de 100 mil vidas brasileiras. Um número muito próximo de sua população estimada de 100.374 pessoas em 2019 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Assim, seria uma população de mortos que habitariam em ti, caso fizéssemos essa comparação com as mortes provocadas pela COVID-19 no Brasil. Esse número precisa penetrar em nossos corpos para sentirmos a realidade que nos envolve. Não iria mais existir vidas humanas em suas fronteiras político-administrativas, se houvesse uma concentração das mortes em você. Uma cidade dos mortos seria central em seus interiores.


A capacidade imaginativa é uma oportunidade que está posta para podermos pensar e sentir para sermos outros. Precisamos imaginar você completamente esvaziada de qualquer vestígio de pessoas. Para materializar a dor coletiva pelas mais de 100 mil vidas perdidas pela ganância da sociedade de consumo e o genocídio do governo federal brasileiro. Essa dor deve ecoar em ti. Essas mortes poderiam ser nossos familiares, amigues ou vizinhes. E mesmo, nós. Uma cidade inteira sem vida humana é viável no mundo pandêmico. Não podemos continuar produzindo morte em um modo de viver destrutivo que retira qualquer possibilidade de respirar.


Essa asfixia é presente em você na expansão do desmatamento sem retorno da resistente Mata Atlântica. Como observo com tristeza em Ipiabas, uma de suas filhas, por isso, o Movimento Liberte o Futuro, nos convoca para termos uma posição: “Seja no campo ou na cidade, queremos viver como floresta. Em pé – e lutar.” Assim, como árvore, em pé, irei perseverar em minha luta por meio das palavras. E espero que você possa acolher nossas vozes para construirmos coletivamente uma cidade que respire uma pulsão de vida com a natureza. As palavras de Ailton Krenak, liderança indígena, precisam te alertar: “Eu não percebo que exista algo que não seja natureza. Tudo é natureza.” É essa pouca floresta que ainda habita em ti, a qual fornece nosso oxigênio para continuarmos respirando.


No hoje estamos vivendo uma pandemia que ainda não conhecemos em seus limites territoriais. Os teste sorológicos promovidos pela prefeitura que te administra, apresentam apenas um retrato do passado, das pessoas que já produziram algum tipo de anticorpo diante da exposição viral. Dessa forma, não nos auxilia a compreendermos o comportamento do novo coronavírus no presente e como iremos prosseguir no futuro, além de serem pouco precisos nos resultados. Não temos controle dos processos de flexibilização do distanciamento social ocorridos em ti. A interiorização da pandemia é uma realidade que te permeia. E precisamos despertar para essa dolorosa verdade. Não voltaremos ao Novo Normal, pois nunca fomos normais. Mais uma vez Ailton Krenak te envolve com seus pensamentos: “Tomara que não voltemos à normalidade, pois, se voltarmos, é porque não valeu nada a morte de milhares de pessoas no mundo inteiro.” Por fim, te questiono: Será que não valerá nada a morte de toda sua imaginária população?


Ipiabas, 11 de agosto de 2020