• Renan Vicente da Silva

Uma carta ao amar: que floresce na primavera revolucionária


Fotografia na exposição "Enciclopédia Negra" no Museu de Arte do Rio (MAR) (acervo pessoal)

Meu querido amar,

Escrevo esta singela carta para transbordar, além de ti. Além de mim. Além de nós. É instigante e angustiante sentir sua presença, aqui e agora. Em cada palavra traçada nesta singela escrita, pois és quase um sentir indescritível. Irei tentar e falhar ao lhe descrever. Suas curvas são tão sinuosas e esperançosas. São como sonhos que não queremos despertar, mas não conseguimos recordar. São como memórias aconchegantes que são apagadas, mas que ainda necessitam se fazer vivas. Por isso, insisto em você. No amar em suas diferentes composições e construções. No amar em suas horizontalidades e singularidades. No amar em suas fluências e confluências. E até transfluências.


É tão nebuloso caminhar contigo em um mundo que lhe coloca numa ditadura. Em que amar na sua simplicidade, torna-se o amor romântico. Com toda colonialidade aprisionante e asfixiante. Na qual somos condicionados por sentimentos tão conflitantes que me ferem, ao invés de curar. Como você se sente nesse caos? Já que sua essência verdadeira é semear e germinar pelos mais diferentes solos existenciais. De fornecer um aconchego para continuarmos em nossos caminhares. Mas sinto que você, brota como uma flor no asfalto. Rompendo todo concreto colonial que pavimentou nossas subjetividades. E nesse devir, vamos criando outras possibilidades nas encruzilhadas da vida.


Você é revolução e libertação. Acredito que posso te renomear enquanto dengo. Uma ancestralidade que habita em ti. De muitas outras gentes que compõem sua divindade de ser, assim, reforço um sentimento que lateja em meu corpo. Em que não quero o amor, eu quero dengo. Esse simples pedido de acolhimento frente as dores dessa sociedade que devora e mata pelo dinheiro. Meu corpo anseia beber em sua fonte inesgotável de afeto. Nesse nutrir para resistir. No qual possa cada dia mais atravecar e enegrecer todos os passos das nossas performances existenciais. E ir contra a lógica posta, é muito exaustivo, mas é necessário seguirmos pelo reflorestar de nós. Ou não haverá outras possibilidades de futuros. És centro, és eixo. Uma floresta que precisamos adentrar com todo respeito pelo axé ancestral presente em cada ser mais que humano, os quais ainda permanecem em pé.


E como ando imaginando sobre você, na sua presença em minha existência. Já que és verbo. E verbo é ação. Um agir mais que necessário diante de tanto sofrimento. Que fornece uma força para cultivar mais gentes nos cantos e recantos de mim. E nessa ciranda de pessoas vamos conseguindo mobilizar para transformar, mentes e corpos. Isso ecoa para desconstruções, ressignificações e destruições tão profundas, que nos fazem desabrocharmos e florescermos para as próximas primaveras revolucionárias. Em nossas temporalidades singulares reconhecemos esses movimentos que fluem e confluem, na luta pela coletividade. Sua existência é coletiva, é comunitária, é quilombo, é aldeia. Nesse estremecer do eixo, e deslocar do centro, é que se faz mais que pulsante sua necessária reverberação.


Um afetuoso e primaveril xêro,

Renan Vicente da Silva

Ipiabas, 14 de outubro de 2022