• Renan Vicente da Silva

A violência da ‘cura gay’ [filme: 'Boy erased']

Atualizado: Nov 4


Um registro do filme que representa a liberdade de ser (Foto: focus features).

Nesta escrita irei promover algumas palavras sobre o filme, Boy erased: uma verdade anulada (Joel Edgerton, 2018), uma potente narrativa cinematográfica, na qual me distancio em tentar escrever uma crítica profunda, pois não me compete essa atribuição. Apenas quero transbordar os sentimentos e pensamentos que me envolveram ao me colocar diante dessa história, enquanto um homem gay em uma sociedade homofóbica conservadora. Assim, nosso respirar fora do armário social é uma coragem enorme, já que tudo em nosso meio é construído na lógica binária heterossexual, a heteronormatividade, que é imposta aos nossos corpos. E dizemos: Não! Como o Operário em construção[1] de Vinícius de Moraes, e rompemos com essa única forma de ser possível.


Na história somos deslocados para uma vida marcada por incertezas do personagem principal, um jovem tentando compreender seus desejos. E ele está inserido em uma família extremamente religiosa, os quais ao se depararem com uma inconveniente verdade sobre a orientação sexual de seu filho, o mandam para um centro de ‘cura gay’. Um pai pastor e uma mãe silenciada. Compartilho da angústia dele em não conseguir nomear seus sentires, um medo em lidar com os desejos sexuais. Nunca consegui dizer para minha mãe, diretamente em seus olhos, sobre quem sou, assim, escrevi uma carta. O amor é central aqui, ao lado de minha mãe e pai. A religião não nos regula e controla, como na vida desse jovem em busca de respostas. Acompanhamos sua peregrinação no centro de tortura que se reveste sob um manto terapêutico, já que para esses fundamentalistas, ser gay é uma opção, uma doença que precisa ser curada. A saga de tortura vai elevando de grau ao passar do tempo em consonância com o sofrimento psíquico dos internos. Também somos torturados. Seja pela escrita sangrenta do inventário moral[2] ou pela reprodução de comportamentos da masculinidade tóxica, para se tornar homem, como se já não fossem. Tentei me imaginar sendo internado nesse lugar, mas não consegui. É algo de um nível de desapropriação de nós, de tanta violência, que perdemos o sentido de continuar vivendo. Até quando serão aceitos esses espaços de morte?


A sensibilidade e elevação do nível de consciência da mãe desse jovem é extraordinário. Ela nunca foi conivente com essa medida extrema, foi um autoritarismo do pai pastor, em nome da imagem social a zelar. E aos pouco ela vai compreendendo o quanto aquele antro de morte está matando seu filho, o qual é gay, e não escolheu ser. Uma outra mulher é forjada depois dessa torturante jornada que a afeta profundamente. Ter uma pessoa sensível ao nosso lado torna mais leve atravessar essa insegurança que habita ao adentrarmos em nossas sexualidades. O despertar desse jovem ocorre depois que sai desse hospício da ‘cura gay’ e alcança sua independência, em ocupar com mais respostas sobre si o espaço universitário e ecoar nos seus trabalhos jornalísticos. Contudo, um ódio nunca foi represado em seu coração para com seu pai pastor, pelo contrário, o amor venceu. A família se tornou finalmente feliz, sendo quem realmente são. É um filme extremamente encantador que tocou em meus interiores para reforçar o grito de que não retornaremos para os armários sociais. Tenho orgulho de quem sou até meu último respirar.


[1] Um potente poema escrito por Vinícius de Moraes (http://viniciusdemoraes.com.br/pt-br/poesia/poesias-avulsas/o-operario-em-construcao).

[2] Um processo de escrita torturante das experiências sexuais homoafetivas dos internos para serem lidas no centro de ‘cura gay’.