• Renan Vicente da Silva

Um Brasil doente produzindo doentes de Brasil: uma reflexão da centralidade de nossos corpos

Atualizado: Mar 23


Minha pequena mão de criança simbolizando um girassol para o vir da primavera.

Minha pátria amada Brasil. Um país que foi forjado em invasões desde 1500. No período das grandes navegações. Uma expansão mercantilista perversa para outros territórios do mundo. É o começo da propagação do vírus mortal do capitalismo. Que provocou quase a extinção dos povos originários. E a escravidão de corpos negros africanos. Devemos construir uma memória imunológica. Desse tipo viral que não mata de imediato seu hospedeiro. Se replica de acordo com o capital. Nos últimos tempos tem se multiplicado de maneira exponencial. Uma curva de ascensão econômica que não tinha limites. A progressão geométrica da ganância. Essa infecção crônica que nos habita. Que dita nossos modos de vida. Nosso consumismo. Um dos sintomas mais clássicos. E agora estamos vivendo um encontro de dois vírus.


Um novo coronavírus que nos mostra um outro modo de ser. De que é possível desacelerar. A redução da poluição das nossas pegadas de carbono são uma realidade. Não nos deslocamos mais de ônibus, carros ou aviões. Nós paramos. Um mito que era criado como impossível pelo vírus do capitalismo. Uma imaginação de colapso desse sistema é cada vez mais central. Vamos evocar esse nosso poder imaginativo conjuntamente com a tessitura de uma desobediência civil. E a possibilidade de imergir de um novo acordo social coletivo verde. Um acordo que seja a voz dos vários povos que nos compõem. Dos indígenas. Dos ribeirinhos. Dos quilombolas. De deslocamento da marginalidade desses originários para a centralidade de direito. Pode ser uma vacina viável para imunizar nossa sociedade para a um estado de solidariedade. Será que nós conseguiremos ocupar essa oportunidade que está sendo posta?


Os corpos doentes que sobrevivem na nossa pátria amada são um reflexo do nosso falhar enquanto sociedade. Não deu certo. Não existe bem-estar social. Não existe vida digna. E agora diante de uma pandemia que parou o mundo. Que parou o Brasil. Conseguimos ver além da nossa cegueira individualista. As mazelas sociais que nos cercam. A proximidade da pobreza extrema. Dos territórios marginalizados. Que de certa forma estão ocupando uma centralidade na grande mídia. Os corpos da fome. Da miséria física e psíquica. Um sofrimento que fere a existência de corpo. Uma dor coletiva que se desloca para a centralidade. E nos atravessa com intensidade nesse perverso encontro do vírus do capitalismo e o novo coronavírus. Ambos consequências de nosso modo destrutivo de existir nesse planeta. Devemos repensar nosso ser e existir. Não podemos continuar sendo os mesmos. Não cabe mais. A oportunidade está aberta. É o momento de ocuparmos a centralidade. Ou iremos continuar na marginalidade.


Estamos mais sensíveis aos gestos mecânicos do encontro com o outro. Um abraço. Um beijo. Um carinho. Como sentimos falta desses momentos afetivos. O sermos ao invés de termos. Um corpo que está demandando por afetação. Um corpo que não existia em nossas correrias cotidianas. E nas imersões silenciosas das redes sociais. Um espaço que é o “império da modificação de comportamento”, segundo Jaron Lanier. Um crítico e filósofo da internet. Ele ainda nos provoca a criar uma cultura de afeto, cuidado e acolhimento em torno da tecnologia. Para evitar um suicídio em massa. Um adoecimento mental que torna nossos corpo doentes. Nossos dados são coletados diariamente pelo vírus do algoritmo. Em prol das empresas para saberem nosso padrão doentio de consumo. Numa narrativa de habitarmos em um ambiente gratuito. Somos mercadorias manipuláveis postos para sermos vendidos. Contudo, hoje estamos nos reinventando em nosso isolamento físico, mas não social. Precisamos refletir nosso ser e estar com a internet. O que fazemos nela e com ela? Iremos continuar nos alimentando de várias informações falsas que matam. A propagação imediata dos ódios que matam. A ausência completa de encontro com os corpos que também matam.


Um Brasil doente que está sendo forjado nas redes sociais pelas forças do ódio da extrema-direita. Em diálogo com um fascismo que nos corrói enquanto corpo e sociedade. Uma nação refém das palavras de morte propagadas pelo anti-presidente Jair Bolsonaro. Um déspota eleito. Conceito bem construído pela jornalista e escritora Eliane Brum. São indivíduos que vendem um passado que nunca existiu em detrimento de um futuro que reconhecem a inviabilidade de constituírem. Assim promovem uma política negacionista. Da ausência da crise climática em um planeta que ferve em febre constante com temperaturas extremas. Da ausência de miséria em uma país miserável. Do renascimento do ‘comunismo’ enquanto um alvo constante. Da minimização da pandemia do novo coronavírus em nome de um desenvolvimentismo econômico. São disputas de narrativas para sequestrarem a existência de futuro. Viver em um passado doente é o único caminho que conseguem trilhar. No agora. As mortes são centrais em nossas vidas. Nos permeiam. Nos tocam. Nos afetam. Diante da onda de mortes que já estamos mergulhados. Não existe narrativa fascista que prospere. Ou será possível que consiga?


“E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?” São as palavras de morte do vírus bolsonarista que pioram o quadro clínico do Brasil doente. É a proteína viral do fascismo infectando as células frágeis da democracia. Para emergir a insuficiência respiratória da ditadura. Um espaço asfixiante. Uma enfermidade que começa no dia 17 de abril de 2016. O dia da votação do impeachment de Dilma Rousseff. Nesse momento se materializou a avassaladora corrida de ódio de Bolsonaro para ocupar o cargo de presidente da república. Ao homenagear um torturador. Carlos Alberto Brilhante Ustra. Um homem sádico que tinha prazer em colocar ratos nas vaginas e madeira nos ânus dos torturados. E foi responsável pela morte de mais de 50 pessoas no centro de torturas da Ditadura Militar (1964 – 1985) em São Paulo. Essas atitudes refletem a trajetória subjetiva de Jair Messias Bolsonaro. Com uma carreira medíocre no exército. Em que ameaçou explodir um quartel para que houvesse aumento salarial. Nunca se importou com outras vidas. Além da sua própria na ânsia de poder. Um ato de terrorismo que foi encoberto pelo corporativismo frequente das forças armadas. Depois seguiu para a vida pública. De vereador a deputado por quase 30 anos. Mais mediocridade em sua existência. Apenas estava aguardando uma oportunidade posta. E a eleição de 2018 foi esse momento. Era visto como o caminho para retorno ao poder das elites militares desde os anos sangrentos da ditadura. E conseguiram essa centralidade. Um apagamento histórico. A ausência de memória se fez presente. A democracia já não possui mais anticorpos para se manter viva. Uma falência funcional das instituições democráticas são uma realidade que nos permeiam enquanto sociedade.


Hoje habitamos um país que possui mais de 25 mil corpos mortos. De menos 25 mil histórias e amores. De menos 25 mil vivências e experiências. De menos 25 mil subjetividades e sentimentos. Isso reflete uma potente escrita do livro ‘A Peste’ de Albert Camus. No qual é descrito uma verdade que nos atravessa, “(...) a sociedade dos vivos receava durante todo o dia ser obrigada a ceder lugar à sociedade dos mortos.” Essa é a centralidade das mortes em nossas vidas. É principalmente de corpos de mulheres negras, pobres e faveladas. Devido a injustiça pandêmica. Sabemos quem será mais afetado diante dessa pandemia. E no pós-coronavírus. A miséria será central em nosso país. Não estamos no mesmo barco. As elites brancas, ricas e privilegiadas vivem em um outro Brasil. Um Brasil dos sonhos construído para 1% da população em detrimento dos outros 99%. A desigualdade social é uma condição crônica em nosso país. Provoca um adoecimento mais agudo dos corpos marginalizados. Somos doentes desse Brasil.


Devemos começar a trilhar um caminho de possibilidades para sairmos desse sistema nefasto que produz morte. Assim devemos nos deslocar para as favelas. Um território que é quilombo. Uma outra forma de cooperação mútua no bem-viver do coletivo. No qual as pessoas resistem com um sorriso. E um cantar poético de suas vidas. Seja pelo samba ou RAP. Uma alegria que cura. Um curar desses corpos massacrados. Esse sorrir é um ato político de sobrevivência. É um espaço que habita sensibilidade e acolhimento. Essa pandemia evidencia o quanto são mais fortes. É um movimento de cuidar dos seus. Um grito de “Nós por Nós” que ecoa. Não existe Estado nesse meio. Ele já é mínimo. E aparece apenas na presença das forças violentas das operações policiais. Um vírus endêmico que apresenta uma alta mortalidade nas favelas. Que nome esses corpos sofridos dão aos seus sofrimentos? Essa resposta é possível quando conseguimos tecer uma rede de escuta. E assim evitar um sacrifício de corpos doentes. Deixar esses corpos não mais sangrarem pelas balas que os perfuram, mas que sangrem pelas palavras que cicatrizam suas feridas psíquicas. Como bem disse o casal de psicanalistas Diana e Mário Corso. “É preciso deixar sangrar até que as dores sequem”. As palavras que saem de dentro para fora são um caminho possível que está posto na tessitura das redes. É um ato de amor construirmos esses espaços.


A ressonância emocional é imprescindível para sermos outros nessas escutas sensíveis que vivem em cada um de nós. É importante uma conexão do nosso córtex cerebral com nosso cérebro animal. Para termos uma consciência coletiva enquanto espécie. E uma outra conexão com a amígdala cerebelosa. Para ativarmos centralmente uma estrutura cerebral ligada as emoções. Essas conexões são dialogadas por Antônio Nobre. Um cientista encantador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Os nossos sentimentos são nossa vacina para não produzirmos mais mortes. Devemos desconstruir o império hierárquico do córtex. Da razão como condição de nossa superioridade. Devemos nos permitir sentir. Sermos esse vazio de conteúdo em um continente asfixiante e insensível. Sermos uma incompletude de Manoel de Barros. Um esvaziar-se para preencher-se de amor e afeto. Apenas desse modo não habitaremos em corpos doentes em uma sociedade doente. Não vamos mais nos deixar contaminar pelas forças do ódio que produzem doentes de Brasil em um Brasil doente. Em breve a Primavera virá. E as flores florescerão.


Ipiabas, 28 de maio de 2020

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