• Renan Vicente da Silva

Qual será o futuro da nossa formação?

Atualizado: Mar 23



O nascer do curso de fisioterapia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ocorre nas periferias da Faculdade de Medicina em 1994. Nesse início havia apenas profissionais médicos fornecendo as disciplinas do curso. No ano seguinte começa um processo gradual da entrada de profissionais fisioterapeutas. Uma ocupação legítima para forjar uma formação em diálogo com o verdadeiro fazer fisioterapêutico. É central uma construção de memória da fisioterapia no Rio de Janeiro (RJ). As origens que nos permitem lembrar quem fomos e quem seremos nos próximos anos. Além de pensarmos em uma formação em consonância com a realidade de nosso sofrido e resistente povo brasileiro.


A Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR) criada em 1954 é uma movimentação realizada por Fernando Iehly de Lemos, um arquiteto carioca, o qual tinha um filho com poliomielite. Uma condição tão presente nesses tempos em nosso país devido à ausência de vacina e um sistema universal de saúde para traçar esse perfil epidemiológico, como o nosso Sistema Único de Saúde (SUS). Não havia, também, um centro de reabilitação para promover os cuidados adequados perante as consequências crônicas dessa condição clínica. Nesse contexto, foi germinado com muito empenho de Fernando Lemos, o início da formação dos profissionais fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais no Brasil. Depois, irrompeu desse meio, a Escola de Reabilitação do Rio de Janeiro (ERRJ) para fornecer uma estruturação da formação desses futuros profissionais. Sendo seu primeiro diretor, Jorge Faria, médico ortopedista, o qual afirma: “Era preciso formar aquela gente. Mas, formá-los num nível em que eles merecessem ser formados.” Dessa forma, educadoras fisioterapeutas vieram de outros países, pois não existiam esses profissionais ainda no Brasil. A primeira turma foi formada em 1957, com dois anos de duração. Um processo de luta pelo reconhecimento de um currículo mínimo dos cursos frente ao Ministério da Educação (MEC) obteve êxito em 1965 com o parecer favorável da Câmara de Ensino Superior no Conselho Federal de Educação (CFE). E, mais recentemente, em 2002 obtivemos a instituição das Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Fisioterapia. Esse documento irá explicitar o papel do futuro profissional fisioterapeuta na Atenção Primária à Saúde (APS) e nas estratégias de promoção e prevenção da saúde.


No hoje estamos vivendo em um mundo pandêmico que nos deslocou para um distanciamento físico seletivo sem precedentes para nossa sociedade. Assim, as atividades presenciais da UFRJ foram suspensas até a viabilidade de uma vacina ou tratamento medicamentoso eficaz. E para continuar suas movimentações no ensino foi aprovada uma resolução no Conselho de Ensino e Graduação (CEG) que permite o ensino remoto do Período Letivo Excepcional (PLE) no segundo semestre de 2020. Desse modo, observo com muita serenidade a imediata adoção do nosso curso de fisioterapia da UFRJ a essa modalidade de ensino. Não houve uma consistente discussão e diálogo ao longo do primeiro semestre de 2020, o qual foi considerado “adormecido”[1] pela administração central da UFRJ. Alguns questionamentos são centrais: Qual é a real acessibilidade digital, física e emocional do nosso corpo social de educandos? Quais são as limitações e desafios da virtualidade no ensinar e fazer fisioterapêutico? Qual será o impacto em nossa formação em saúde? Isso me provoca um sentir a pouca aproximação afetiva do corpo de educadores do curso de fisioterapia da UFRJ para com os seus educandos nesses tempos de tantas incertezas e inseguranças. Nosso memorável Paulo Freire, patrono da educação brasileira, nos envolve com suas palavras: “Não se pode falar em educação sem amor”. Uma pedagogia da amorosidade[2] deveria ser central em nosso curso. Em nossa universidade. Não consigo me silenciar diante desse contexto de marginalização dos sentimentos que está posto em nossa formação. De reducionismo ao “pensamento que calcula” em detrimento do “pensamento que medita” (Heidegger, 1955). Esse último prioriza um sentir para pensar. Sentir para sermos humanos. Entretanto, estamos aprisionados nas quatro paredes das salas de aula reduzidas a apresentação de slides. Em um ensino que já é remoto no presencial. Como será nossos fazeres e seres em saúde no encontro com o outro dentro dessa formação?


Nesse sentido, considero imprescindível explicitar algumas outras inquietações e desassossegos na posição de educando crítico e sensível ao curso de fisioterapia da UFRJ que habito. Uma das mais importantes é a dissociação da nossa formação com o nosso SUS, em seus princípios de universalidade, integralidade e equidade. Não somos envolvidos em um imersão em seus interiores como deveria ser central enquanto educandos de uma universidade pública e gratuita que possui um total de nove unidades de saúde vinculadas ao SUS. Sendo uma delas, o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), o Hospital do Fundão, no qual não é construído pelo curso de fisioterapia nenhum tipo de sentimento de pertencimento, apenas transitamos de forma alienada pelos seus corredores e tentamos respirar em suas salas de aula asfixiantes pelos cinco anos de graduação. No seguir para os estágios obrigatórios, nos quais vivenciamos unicamente a atenção hospitalar e ambulatorial, a maior parte dos educandos, são cooptados pela saúde privada. E se formam sem qualquer tipo de vivência na saúde pública e gratuita. Sem promover um retorno para a sociedade que financia nossa educação. Devemos ecoar os pensares de Sérgio Arouca, médico ativista sanitarista, o qual na 8ª Conferência Nacional de Saúde (8ª CNS) em 1986 afirma com suas palavras, as quais precisam penetrar em nossos corpos: “Democracia é saúde e saúde é democracia”. Sendo assim, um direito de todo povo brasileiro, que enquanto educandos em saúde de uma universidade pública e gratuita deveríamos estar defendendo o SUS ao não sermos coniventes com essa política perversa de desmonte que produz morte. Todavia, vivemos em um autoritarismo da privatização e sucateamento da saúde pública brasileira com reflexos em nosso meio acadêmico. Para mim, o SUS é centro e a saúde privada é periferia. Não podemos mais permanecer silenciados em nossos individualismos até não ter um amanhã público e gratuito para existir nosso ser e fazer em saúde. Desse modo, Ailton Krenak, liderança indígena, nos desperta: “O futuro é aqui e agora. Pode não haver ano que vem.” Nós, educandos, podemos movimentar as estruturas para libertar nosso futuro por meio do sentir, pensar, imaginar e agir na construção coletiva de uma outra formação possível.

Ipiabas, 03 de agosto de 2020


Imagem: Foto dos educandos de fisioterapia da UFRJ na entrada do Centro de Ciências da Saúde (CCS) em manifestação por um ensino público, gratuito e de qualidade em 2017. (Fonte: AdUFRJ)


Referências:


1. FIGUEIRÔA, R. M. Memórias da Fisioterapia: aspectos da evolução histórica do fisioterapeuta no Brasil e no Rio de Janeiro. 1. Ed. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2018.

2. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO. Conselho de Ensino e Graduação. Resolução nº03/2020, de 17 de junho de 2020. Dispõe sobre a adoção de períodos letivos excepcionais e autorização de ensino remoto, bem como de outras atividades pedagógicas não presenciais, como soluções transitórias para o Ensino de Graduação na UFRJ, em função dos efeitos da Pandemia da COVID-19, e dá outras providências. Rio de Janeiro: Conselho de Ensino e Graduação, 2020.

Disponível em:

https://xn--graduao-2wa9a.ufrj.br/images/_PR-1/CEG/Resolucoes/2020-2029/RESCEG-2020_03.pdf. Acesso em: 03 de agosto de 2020

3. Heidegger, M. Serenidade. Tradução Maria Madalena Andrade; Olga Cruz. Lisboa: Instituto Piaget, 1959.

[1] Termo utilizada pela reitora em sessão do Conselho Universitário (CONSUNI) para explicar sobre a suspensão do período, mas não o cancelamento. [2] A amorosidade é, sobretudo, um compromisso existencial com o outro, seja ele humano, seja não humano, ser vivo, enfim, que habita o admirável e complexo universo da physis. (Amorim e Calloni, 2017)