• Renan Vicente da Silva

Quais vidas importam?

Atualizado: Mar 23



A vida não é um bem comum em nossa sociedade, pois existem corpos que podem respirar. E outros que devem morrer asfixiados, como os nossos corpos negros. Com um joelho branco em nosso pescoço negro, com uma bala branca em nossa cabeça negra, com um facão branco em nossa garganta negra, com um chicote branco em nosso dorso negro. Por quanto mais tempo conseguiremos continuar em pé respirando?


Os vários Joãos que são mortos em nosso país, em nossas favelas, nos quilombos da esperança. De São Gonçalo à Cidade de Deus. São concebidos na zona do não-ser[1] em que habita o negro, assim, não somos humanos, somos coisas legitimamente matáveis. Essa outra biopolítica, política da vida, é a necropolítica[2], na qual o Estado determina quem deve viver e quem deve morrer à partir dessa desumanização dos corpos negros. Nós somos produtos do colonialismo, nesse período advém a invenção mental da raça, os negros foram inventados pelos brancos enquanto uma perversa estratégia de dominação dos nossos corpos. Desse modo, Frantz Fanon, psiquiatra negro e revolucionário político, nos alerta para uma indigesta verdade: “uma sociedade é racista ou ela não é”, sendo assim, tudo que habita nesse meio é racista. A universidade é racista. A escola é racista. A saúde é racista. A cidade é racista. A polícia é racista. A política é racista. A mídia hegemônica é racista. A internet é racista. Nós somos racistas. Somos racistas ao termos medo de um grupo de jovens negros ao passarem pela rua. Somos racistas ao naturalizarmos a grande presença de corpos brancos na política, judiciário, universidade, e os corpos negros na coleta de lixo, faxina, bandidagem. Somos racistas ao fecharmos os olhos para essa realidade e seguirmos nossas vidas. É preciso nos questionar, aqui e agora: o que existe de racista em nós?


Para sermos minimamente aceitos nessa sociedade temos que vestir uma máscara branca sob nossa pele negra. Essa máscara irá permitir algum nível de fluxo pelos espaços racistas. Ao entrarmos nos shoppings, teatros, cinemas somos perseguidos pelos seguranças, policiais, capitães do mato. Como se fôssemos negros escravos fugidos das senzalas sociais, dos limites que nos foram impostos, das favelas que são nosso reduto. Assim para alcançar outros lugares, nós negros, desejamos ser branco, em uma triste tentativa de sermos humanos. Essa lógica da branquitude ocorre no processo de alienação colonial[3], em que acontece um apagamento histórico de nossa origem africana, promovendo essa desapropriação da humanidade originária que vive em nós. É uma ferida colonial que nunca se cicatrizou, pelo contrário, está em contínuo jorrar de nosso sangue negro, até não existirmos mais. E esse extermínio é permitido em cada amanhecer. As chacinas são negras, as prisões são negras, os hospícios são negros, as mazelas sociais são negras. Até quando iremos continuar vestindo uma máscara branca que sequestra e mata nossa negritude?


A desigualdade racial deve ocupar centralidade em todas as políticas públicas, discussões, diálogos e debates. Para mim, só viveremos em democracia quando o racismo não existir mais, pois toda miséria e pobreza da sociedade de consumo tem cor, é negra. Um processo de desbranqueamento é urgente nos corpos brancos, tendo como primeiro passo para libertação a escuta, dos corpos negros, com suas histórias, vivências e experiências, as quais precisam ser sementes da consciência racial à serem plantadas em seus solos existenciais. E também nós, corpos negros, devemos ecoar nossa negritude reprimida em nossos interiores por meio do rompimento do silêncio. A nossa ancestralidade africana é centro, a europeia é periferia. Os povos negros não retornaram para as senzalas, assim, nossos saberes e vozes serão escutadas com cada vez mais força, em todos os espaços possíveis e impossíveis.


Devemos construir memória frente aos corpos negros que tombaram, dessa forma, irei recorrer a duas vidas negras, entre tantas que foram ceifadas, uma morte material e outra morte simbólica. Reproduzo a escrita de Eliane Brum, uma jornalista e escritora branca em intenso desbranqueamento, que descreve com muita intensidade o assassinato racista de Miguel Otávio, mais um anjo negro:


“E então, Miguel Otávio, de cinco anos, foi assassinado num prédio de luxo no Recife, em 2 de junho. É uma cena de Casa Grande e Senzala no século 21. A mãe preta, Mirtes Renata Souza, é obrigada a trabalhar na casa da patroa branca, em plena pandemia. Leva o filho, porque as escolas estão fechadas por causa da covid-19. A patroa, Sari Corte Real, primeira-dama do município de Tamandaré, manda que ela vá passear com o cachorro. Com o cachorro. Ela então deixa seu menino de cinco anos com a patroa. Mas a criança chora porque está assustada e quer ficar com a mãe, que avista pela janela passeando com o cachorro. Com o cachorro. A patroa está ocupada com a manicure, e o menino a está perturbando. Ela então o despacha sozinho no elevador. No elevador de serviço. Ele não sabe o que fazer nem como chegar até a mãe. Então desce quando a porta abre no nono andar. Escala as grades que protegem os equipamentos de ar condicionado e cai de uma altura de 35 metros. Miguel Otávio alcança a mãe. Morto. A patroa é presa, mas paga 20 mil reais de fiança e volta para casa.”

Uma outra escrita é da Débora Diniz, professora e colunista do El País, em que narra seus sentires e pensares ao se deparar com uma menina negra grávida de 10 anos vítima de estupro em seu seio familiar:


“Uma menina negra, miudinha, com sandália de dedos nos pés e um vestido florido. A vi de costas, um sapo verde de pelúcia entre os braços deixava a cena ainda mais desconcertante. Era o real em forma de sentença: uma menina pobre, negra, vítima de abuso sexual infantil, à espera de um médico salvador. Em sua cidade, São Mateus, no Espírito Santo, os médicos recusaram-se a cumprir a lei. Desconheço o que alegaram para justificar a covardia. Ela atravessou fronteiras, fez a primeira viagem de avião para ter acesso ao que deveria ser um direito. Sem escândalo ou favores, só o direito ao aborto porque foi violentada e corria risco de vida.”

Todo esse racismo provoca um adoecimento em nós, dentro de cada singularidade dos corpos negros, vamos morrendo internamente, aos poucos, em cada trauma racista, até se concretizar um extermínio físico. O direito de respirar virou um ato de resistência, e irei lutar pela libertação do futuro negro até meu último suspirar. Vamos juntes fornecendo suporte de oxigênio nessa caminhada revolucionária?

Ipiabas, 28 de agosto de 2020



Referências:


1. Fanon, F. Pele Negra, Máscaras Brancas. Tradução Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.


2. MBEMBE, Achille. Necropolítica. 3. ed. São Paulo: n-1 edições, 2018.


[1] Sendo definida por Frantz Fanon, nas primeiras páginas do livro, ‘Pele negra, máscaras brancas’ (2008), como “uma região extraordinariamente estéril e árida”, sem vida. [2] Termo construído por Achille Mbembe, pensador e professor camaronense, ao conceituar a política de morte dos corpos negros. [3] Essa noção para Frantz Fanon, expressa um conhecimento colonial imposto, em que existe uma superioridade branca frente a um inferioridade negra, uma dominação dos corpos negros.