• Renan Vicente da Silva

Os povos guardiões-originários das florestas [documentário: ‘A Última Floresta’]




Me lembro intensamente de assistir a necessária e urgente produção narrativa-cinematográfica, ‘A Última Floresta’ (Luiz Bolognesi, 2021), pelo Festival do Conhecimento da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em sua segunda edição. Em meio as intabilidades na transmissão virtual numa plataforma digital, consegui fluir nos caminhares ancestrais-protetores dos indígenas da etnia Yanomami. Sendo nosso inspirador e roteirista, o xamã Yanomami Davi Kopenawa, que alcança um protagonismo originário importantíssimo ao longo do enredo, uma voz tão curadora e acolhedora em tempos de adoecimentos coletivos. É algo muito extraordinário conseguir respirar nas lutas indígenas pelos seus territórios originários, um sair da minha zona de conforto colonial, mesmo habitando num corpo negro afro-diaspórico. Um confluir de nossas movimentações é central, como no passado os quilombos foram espaços comuns de resistências e reexistências negras-indígenas.


Confesso que algumas partes essenciais do filme-documentário travaram, a minha conexão com a Internet não cooperou. Desse modo, anseio retornar para as salas de cinema, a fim de imergir num contexto mais estável, de qualquer forma, foi uma experiência inquietadora caminhar conjuntamente com Davi e seus guerreiros, em sua maioria ou totalidade homens. Diante de um inimigo tão devastador e ganancioso, como o garimpo, e toda sua teia de relações de poder político-econômico em destaque. Todavia, mesmo sabendo da grandiosidade e periculosidade das forças postas, não cederam um passo atrás, pelo contrário empunharam seus arcos e frechas, assim como seus corpos originários, para defenderem nossas florestas do colapso ganancioso capitalista.


É importante registrar nesta ligeira escrita a lindeza poética presente nas imagens do documentário são espetaculares e envolventes, não conseguimos deixar nossos sentimentos marginais, eles alcançam centralidades nos nossos corpos e mentes. Muitas vezes me senti dentro da floresta, rodeado pelas existência indígenas com riquezas de cores, sorrisos, revoltas, amores, que nos convocam para uma posição e luta imediata, pois não temos muito mais tempo para perder. Existe também muitos diálogos nas línguas Yanomanis, já que existe uma diversidade linguística desses povos, a qual evidencia toda uma vida das línguas, essas que são transmitidas pela oralidade. Escutar as vozes ancestrais é como escutar a Mãe Terra, e seu pedido de ajuda para com os seres que habitam no seu vasto e fértil solo. Talvez, nós, “povo da mercadoria”, como Davi Kopenawa nos nomeia, não estejamos com os ouvidos abertos para escutar os sons que evocam das florestas, e assim vamos nos perdendo numa existência sem sentido e mortal.


E esse filme-documentário nos coloca em alguma direção, não sei se outras pessoas sentiram essas sensações também, espero muitíssimo que sim, e até mais reverberações e ações. Não podemos continuar fugindo da realidade que está na nossa frente. As florestas estão em chamas, em desmatamentos, em minerações contínuas, tudo isso pelo dinheiro. Essa é a insanidade de nossa sociedade que se vende para um sistema insustentável, em que muitas pessoas não possuem alternativa, mas talvez já tenha passado da hora de criarmos opções de outros futuros possíveis. Da mesma forma que os guerreiros Yanomanis estão criando para protegerem nossas florestas, pelo bem-viver comum entre os vários povos humanos e não-humanos.



Ipiabas, 19 de setembro de 2021




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