• Renan Vicente da Silva

Os cem anos da UFRJ em diálogo com minha vida

Atualizado: Nov 4


Uma foto de autoria desconhecida, na qual é registrada uma funcionária terceirizada da limpeza lendo um trabalho acadêmico em uma apresentação de pôster no corredor da UFRJ.

Meu início nos interiores centenários da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) começam no primeiro semestre de 2016, no curso de fisioterapia, me recordo de naqueles tempos estar bastante ansioso com a realidade que estava posta ao me deslocar para a cidade do Rio de Janeiro (RJ), nossa capital. Além de adentrar no universo da universidade pública e gratuita, o qual ainda não tinha noção plena do significado dessas duas características, minha imaturidade política me permeava. Essa mudança completa de dinâmica de vida foi central, sair da serena e oxigenada Ipiabas com sua resistente Mata Atlântica, não foi algo fácil. As cidades grandes são modos de vidas insustentáveis, que nos consomem aos poucos com suas asfixias diárias, e nessa pandemia enxergamos com mais intensidade essa falência. São lugares saudáveis para os corpos brancos que moram com o que resta de natureza em diálogo com a cidade, a tal natureza urbana. E a UFRJ está localizada com maior presença na Ilha do Fundão, a qual foi concebida em grandiosidade na época do milagre econômico[1] da ditadura militar (1964 – 1985), em que juntaram um amontoado de muita terra e avançaram em direção a nossa poluída Baía de Guanabara, a qual possui ainda menos oxigênio que a cidade carioca. Começo estas palavras escrita pelos tempos atuais da memória dessa instituição, pois não pretendo realizar uma retrospectiva histórica desde 07 setembro de 1920, ou menos ainda desde 1808, já que não sou historiador, mas quero tecer algumas palavras da minha vida com a UFRJ.


Nesse sentido, vamos começar de algum início, talvez nos idos de março e abril de 2016, meu primeiro estar nos corredores dessa instituição. Me recordo do dia da efetivação da matrícula ao lado de meu saudoso primo, o qual faleceu devido um infarto fulminante meses depois, uma tristeza envolve meu coração. Depois retornei para realizar o ato de inscrição nas disciplinas no Centro de Ciências da Saúde (CCS/ UFRJ), um imponente espaço que me perdi em seu labirinto sem fim, até alcançar o tão focado bloco K, entre tantos outros blocos que preenchem esse meio. Neste mesmo dia conheci alguns dos futuros companheires de jornada acadêmica, uma timidez me dominava em alguns momentos, mas fiquei feliz com esse primeiro encontro. Recordo do primeiro dia de aula no subsolo, uma outra existência em mais blocos subterrâneos que não existe luz do sol, nunca me senti confortável. Um aparente sufocar sempre me percorreu dentro das quatro paredes das salas de aula, com os monólogos intermináveis em apresentações exaustivas, seria essa a formação universitária? E com o passar do tempo fui compreendendo que sim, e menos oxigênio conseguia capturar. Uns diziam que era assim apenas no ciclo básico, uma outra vivência estava predestinada no ciclo clínico. Como se essa fragmentação perversa do ensino de forma alienada da realidade fosse natural, desse modo, vamos seguindo como gado os currículos que nos são impostos, sem qualquer perspectiva dialógica de construção coletiva. Não conseguia mais continuar seguindo com um sofrimento acadêmico que produz dor em nossos interiores. Devemos promover um grito de basta aos processos de adoecimentos que existem nos cem anos da UFRJ, nas instituições que disciplinam nossos corpos para produtividade insana, em consonância com uma desapropriação de nossos sentimentos, no hoje, renuncio a esse modo cartesiano de violência.


Na busca de uma outra possibilidade de respirar nos meios da UFRJ, em meu caminhar em um mar de ausência de sentidos, me deparo com uma verdadeira extensão universitária. Apareceu para mim como uma âncora no fornecimento de sentido frente ao real papel da universidade pública e gratuita, sendo centro a responsabilidade social para com a população brasileira, mas não impondo seus saberes acadêmicos, pelo contrário, aprendendo com os saberes populares, com os saberes favelados, com os ribeirinhos, com os saberes quilombolas, como nos encanta Antônio Bispo dos Santos, escritor e liderança quilombola:


“No dia em que as universidades aprenderem que elas não sabem, no dia em que as universidades toparem aprender as línguas indígenas – em vez de ensinar –, no dia em que as universidades toparem aprender a arquitetura indígena e toparem aprender para que servem as plantas da caatinga, no dia em que eles se dispuserem a aprender conosco como aprendemos um dia com eles, aí teremos uma confluência. Uma confluência entre os saberes. Um processo de equilíbrio entre as civilizações diversas desse lugar. Uma contracolonização.”

Ao ler essas palavras que penetraram em meu corpo, fui envolvido na recordação da minha ausência de sentido de continuar existindo em uma formação que não dialoga com a sociedade brasileira, em todos esses saberes que a compõem. É uma formação que nos ensina a ensinar, enquanto futuros profissionais graduados, possuidores de um saber acadêmico superior, contudo, a universidade descolonizada deveria nos ensinar o aprender a aprender. Na centralidade da minha capacidade imaginativa, imagino um dia em que a UFRJ, em seus próximos cem anos de vida possa aprender mais do que ensinar. Enquanto não alcançamos institucionalmente esse semear de outros saberes no solo existencial da universidade, vamos nos movimentando individualmente, não podemos permanecer silenciados. Assim, na possibilidade extensionista me ancorei, em um projeto realizado no território de favela, no quilombo da esperança. Nesse espaço, mais especificamente, no complexo de Manguinhos, me deparei com uma forma de me debruçar sobre um aprender por meio da escuta sensível, das histórias e vivências dialogadas com afetividade. E comecei a aprender em essência, além dos muros sufocantes que limitam nossa potência humana.


Na atualidade pandêmica que nos permeia, me vejo de volta ao lar que fui deslocado para ser integrado ao corpo social da UFRJ. Um retorno que me desperta, mais uma vez, para minha vida. Estava vivendo em um modo automatizado, sem qualquer perspectiva subjetiva, era uma coisa que produzia para essa academia centenária. O ensino remoto nascido dentro do período letivo excepcional (PLE), foi construído de maneira rápida sem qualquer responsabilidade emocional de estarmos vivendo em uma pandemia que já ceifou, até este momento, 126.686 vidas brasileiras. Será possível comemorar os cem anos da UFRJ nesse contexto de morte? No memorável e hipócrita questionamento heroico de Dom Pedro I: “Independência ou morte?” Digo que a morte venceu, a COVID-19 foi e está sendo utilizada pelo governo genocida para matar uma parte da descartável população brasileira, a qual é negra, pobre, favelada, indígena, quilombola, ribeirinha. Diante disso não posso simplesmente viver no ensino remoto presente na centenária instituição, o que para mim, seria um retorno ao novo normal, e renuncio com todas as minhas forças essa volta para tragédia humana que somos. Assim, estou imerso em espaços que fornecem um suporte de oxigênio para continuar respirando e lutando, como no escrever as palavras que me compõem, sem qualquer compromisso produtivista fútil, apenas expressar os sentimentos e pensamentos que me forjam.


Não posso perpassar neste rememorar os quatro anos que caminhei na UFRJ, sem realizar um resgate sobre as diversas pessoas que atravessaram em minha vida. Uma diversidade começou a habitar nos interiores elitista dessa universidade, com muito empenho das políticas de cotas, uma reparação racial tardia que inicia gradualmente no promover uma mínima mudança com ares dos Brasis que existem. Foi na UFRJ que houve o desabrochar de minha sexualidade, ser gay, sair do armário social repressor foi possível no meio acadêmico que não se reduz a ser ensino, pesquisa e extensão, vai muito além disso por meio das pessoas que ocupam esse espaço. Nas chopadas conseguimos alcançar as várias potências corporais que tentam sobreviver na UFRJ, onde conseguimos ser nós mesmos, sem qualquer tipo de julgamento, violência, opressão. É um dos poucos momentos que a universidade é universidade, pois conseguimos aprender com o outro através dos encontros dialógicos, seja da medicina com letras, da fisioterapia com arquitetura, da engenharia com história, da matemática com biologia, do direito com física. Sinto saudades dessa pulsão de vida.


É importantíssimo tecer algumas palavras de felicitações aos cem anos da UFRJ, os questionamentos e críticas sempre existiram, enquanto ainda respirar nesta sociedade de consumo. É uma instituição que me acolheu com muito carinho, desde minhas demandas assistenciais até emocionais, com certos limites, sempre me senti pertencente. Sou um filho negro e gay de Minerva, a deusa da sabedoria romana, símbolo da UFRJ, a qual considero que aprende conosco em cada semestre, com a entrada de novos ingressos nas incertezas e inseguranças da dimensão universitária em suas vidas. Um orgulho explode em meu coração em cada amanhecer que pude estar na UFRJ. Por fim, espero que uma outra universidade brote na primavera revolucionária do povo brasileiro nos próximos cem anos que virão.



Referência:


1. SANTOS, Antonio Bispo. Somos da terra. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 12, página 44 - 51, 2018.

[1] Foi um período de uma falsa positiva realidade econômica do regime militar, em que desencadeou em várias obras faraônicas, como a ponte Rio-Niterói e a Transamazônica.