• Renan Vicente da Silva

Os carnavais em diálogo de si: das ruas desocupadas para as areias ocupadas

Atualizado: Mar 23


Quadro de Otávio Araújo, Cristo Favelado. Rio de Janeiro, 1955

Os primeiros movimentos e pensamentos no carnaval carioca


O carnaval no ano de 2020, na cidade do Rio de Janeiro (RJ) foi de nada menos, nada mais, que 50 dias de ocupação das ruas pelos diversos corpos. Diante disso, senti um impulso de adentrar nessa festa popular, que apresenta uma outra possibilidade de experienciar os espaços públicos. Em relação ao longo período festivo, isso deriva da necessidade de dinheiro para os cofres da prefeitura municipal do RJ em processo de falência, pois estão totalmente esvaziados e desviados para fins privados na organização criminosa do ex-prefeito Marcelo Crivella. Um tanto contraditório para um governo marcado por um conservadorismo neo-petencostal cristão, pelas bençãos do bispo Edir Macedo, que sempre repudiou as festividades do carnaval, pois é muito embasado na cultura afro-diaspórica, porém hoje, em um contexto de colapso econômico municipal, declara 50 dias dessa festividade. Estou bastante entusiasmado para essas movimentações, mas também receoso, um misto de sentimentos me preenchem. Todavia, não deixarei de ocupar as ruas, temos que aproveitar essas brechas para existir e resistir. Nesse sentido, coloquei meu corpo negro, gay, vegetariano, interiorano, inspirador da saúde e da educação pública e gratuita nas ruas cariocas, essas mesmas que são encharcadas de sangue derramado das mulheres, negras, indígenas, quilombolas, faveladas.


Nesse dia 12 de janeiro de 2020, numa manhã de domingo, me desloquei direto da casa dos meus pais em Ipiabas, interior do RJ, para casa de uma querida pessoa próxima, na Ilha do Governador. Na possibilidade de conseguir me arrumar e comer alguma coisa, já que existe uma demanda prévia por glicose na embriaguez existencial carnavalesca. Logo em seguida, seguimos para o bairro de Copacabana, o qual sempre recebe grandes eventos, mas isso não quer dizer que exista uma hospitalidade plena. Sendo evidente quando a Associação de Moradores de Copacabana (AMACOPA) entrou com um processo judicial para cancelamento da realização da abertura oficial do carnaval. O Tribunal de Justiça, contudo, derrubou esse processo e o evento foi mantido como estava previsto. A diferença desse bairro para o resto dos outros da zona sul, é o seu maior grau de suportabilidade da descida dos favelados ao asfalto, que observamos em maior inaceitabilidade em Ipanema, e muito mais no Leblon. É uma verdadeira segregação racial, o apartheid invisível brasileiro, tão silenciada em nossa sociedade, porém, muito presente nas pessoas e territórios, como uma forma de delimitar os espaços, brancos e negros do RJ.


O palco utilizado para a abertura desse evento de ocupação dos corpos na rua foi o mesmo da festa na virada do ano, uma forma de manter a mesma estrutura, algo bastante logístico. A questão fundamental é que esse palco estava localizado bem em frente ao imponente e inacessível, Copacabana Palace. Um dos símbolos máximos do elitismo colonial carioca, no qual havia abadás exclusivos para os ilustres hóspedes no bloco interno, fora das ruas. Estávamos aos pés desse ícone do desejo capitalista da sociedade burguesa brasileira. Nesse momento, acabei pensando sobre a relação de poder que isso expressava, devido a existência de uma imensa maioria de corpos brancos na varanda do palácio, enquanto que nas ruas, eram ocupadas massivamente de corpos negros. Isso me leva a uma percepção sobre a existência de dois blocos, um nas ruas, solo que o carnaval se faz presente em essência e potência, entretanto, tinha um outro lá em cima, em que o carnaval era apenas uma mercadoria de consumo.

Os impactos da desigualdade racial no direito à cidade dos corpos negros


Estar presente nesse espaço de segregação, não é algo novo no mito da democracia racial, todavia me causou um desconforto intenso estar nesse local. Possuo internalizado em mim, que uma das essências do carnaval é o encontro com outros seres humanos e não humanos, nas suas diversidades de histórias provocando uma geração de empatia. Minhas observações mais sensíveis foram na perspectiva da grande quantidade de corpos negros, estarem inseridos no mercado informal, sendo ambulantes vendendo de tudo um pouco para sobreviverem. Isso é um reflexo da sociedade brasileira que passa por um projeto neoliberalista de desmonte dos direitos trabalhistas, produzindo empregos precarizados, sem carteira assinada, de forma generalizada e naturalizada. Essa população excedente e descartável estava ocupando Copacabana, com seus sorrisos negros revolucionários. Provocando uma maneira de resistência pelo sorrir que irrita os interiores da burguesia branca-carioca, a qual tenta e falha no sequestro diário desses sorrisos.


Estava com minha amiga bem próximo ao Copacabana Palace e dali acompanhamos o bloco da favorita que se apresentava, depois teve a entrega da chave da cidade ao Rei Momo, uma forma simbólica de iniciar a festa popular, e por volta de umas 18:00 terminou totalmente a abertura do carnaval. É importante reforçar que o início foi por volta das 15:00. Não compreendemos aquilo, ficamos muito surpresos pela rapidez do evento. Todas as luzes do palco foram apagadas. Depois, pensando e repensando, percebi que esse era o recado da elite: vão embora seus pretos e periféricos, já deu por hoje. Assim, fomos descendo para encontrar um banheiro, pois os químicos ao redor estavam em números reduzidíssimos. Nos deparamos com uma corrente de policiais que estavam preparados para avançar nos corpos pretos e periféricos que já passaram da hora de estarem na Avenida Atlântica. Essas forças policiais de repressão usavam a justificativa da necessidade de abrir a via para o fluxo do trânsito. Mas como você dispersa 300 mil pessoas em menos de 30 minutos? Bom, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) sabe muito bem, possuem suas próprias estratégias. E as utilizaram com a mesma violência que os corpos pretos e favelados sofrem quando tem suas casas invadidas e vidas matáveis. Eu e minha amiga tivemos a sorte de sair do local antes da guerra se instalar e as ruas serem tomadas novamente por sangue negro. Os sons das bombas e balas de borracha eram constantes, não usaram armas verdadeiras, pois estavam aos pés do Copacabana Palace, existia alguma visibilidade midiática. Não houve diálogo. Não houve sensibilidade. Não houve carnaval. Apenas opressão asfixiante contra os mesmos corpos afro-diaspóricos desapropriados de humanidade, que não possuem direito de respirar.

As reinvenções do povo negro diante da violência policial-racial


Diante do imponente e inacessível Copacabana Palace, em sua maioria negra, os ambulantes tentavam preservar suas mercadorias, sua possível única fonte de sustento financeiro. As pessoas corriam em euforia, fugiam das bombas de gás e balas de borracha. Nesse momento, o carnaval não se fez presente. A verdadeira faceta desse evento foi colocada para fora, para os que possuíssem olhos enxergassem. Esse carnaval seletivo não era para os corpos pretos e periféricos, mas sim, para os corpos brancos e privilegiados de viverem no império de seu mundo colonial. Esse tipo de carnaval não nos pertencem. Fomos expulsos de um espaço público, da Avenida Atlântica branca. Todavia, a resistência está no nosso sangue, desde os tempos da invasão europeia-branca em África. Da travessia no navio negreiro pelo Atlântico negro, na morte de muitos dos nossos. E nos mais de 300 anos de escravidão ao senhor branco, nas senzalas reinventamos nossas existências. Ao lado dos orixás conseguimos transcender na espiritualidade, no aliviar das dores inomináveis desses períodos. No hoje, transbordamos no nosso sorriso negro. Deslocamos nossos corpos negros para a praia. Se a rua não nos pertence, as areias e águas iram nos acolher. Odoyá Yemanjá, cuide e aconchegue Nós, povo negro no sofrer e morrer contínuo na violência racial do mundo branco. E assim foi, várias pessoas negras continuaram resistindo e respirando na centralidade da zona sul, não foram embora para às margens da cidade carioca. Foi encantador poder estar e sentir essa (re)existência.


No meio de todo esse contexto acabamos nos aproximando e conversando com uma família negra de ambulantes moradora da Pavuna, bairro da zona norte do RJ, que nos relataram em detalhes todo o caos que foi instaurado pela polícia. Escutar essas pessoas foi fundamental para compreendermos as dimensões da brutalidade policial, é um ir além das discussões teóricas reducionistas ocorridas nos interiores das elitistas Universidades brasileiras. Ouvimos aqueles que são silenciados, porém possuem muita voz, numa narrativa com muita indignação e revolta nos envolveram para uma posição e ação, aqui e agora. Fomos construindo laços afetivos cada vez mais intensos, com nossos pés fixos na areia fomos navegando nas suas histórias, imaginando suas vidas. De viverem na estação final do metrô, em mais uma favela carioca, numa casa com baixa infraestrutra, nos barracos acolhedores. E durante toda nossa conversa fomos convidados a irmos para a casa dessa família, com as portas e corações abertos. Um aconchego tão enorme com o outro ser desconhecido, mas isso não era problema algum, nos tornamos próximos pelo aquilombamento de Nós. Foi um momento de muito carinho, fala e escuta, algo que não existe na zona sul. Na casa da classe média branca que naturalizam uma blindagem do mundo externo, na ideologia neoliberal do consumismo e individualismo, assim, erguem suas vidas fúteis e falsas nos condomínios mágicos com muros impenetráveis. Já que apenas essas pessoas brancas privilegiadas podem usufruir dessa utopia criada dentro desses presídios-casas, no isolamento físico da desigualdade social e racial.


Entre as várias cenas compartilhadas pela família na nossa afetuosa conversa, um momento me marcou mais intensamente. Como não conseguiram enxergar por causa do gás lacrimogêneo, quase perderam toda a mercadoria, basicamente sua única fonte de renda. E ao olhar para seus rostos ao narrar esses acontecimentos estavam sorrindo, um sorriso negro sincero e esperançoso. Um sorriso negro diante das práticas coloniais que são exercidas todos os dias para inviabilizar produção de vida, apenas morte para os corpos afro-diaspóricos. Um sorriso negro diante de uma branquitude que nos quer ver chorar, sofrer, morrer, contudo renunciamos desse local para lutar pelo direito de respirar, continuarmos sobrevivendo contra todas as formas de opressão. A polícia foi mais uma vez a guardiã da classe média branca, na manutenção do papel social dos capitães do mato, que caçam e matam seus próprios irmãos e irmãs pretos e pretas.

Uma tristeza me preenche ao não me lembrar os nomes das pessoas integrantes dessa família. De esquecer essa singularidade que compõem nossa essência ancestral, dos mais velhos que vieram antes e ecoam em nossos sobrenomes. Me senti um tanto colonizador, que dá nome as coisas que coloniza, sem qualquer preocupação histórica-ancestral. Contudo, ao escrever essa breve vivência, me recordo das feições dessa família. Das curvas que compõem seus traços únicos, do aconchego fornecido na areia da praia. Fui envolvido de um verdadeiro cuidado afrocentrado, sentíamos um mesmo sofrimento psíquico provocado pelo racismo.


Esse foi apenas o primeiro dia de um carnaval seletivo e segregado racialmente. É triste viver num país que prefere asfixiar sua ancestralidade negra africana em detrimento da utopia branca europeia. Esta escrevivência me despertou para negritude que lateja no meu corpo, no se reconhecer negro numa sociedade racista. E para isso preciso romper os limites impostos pela branquitude, desconstruir para construir uma consciência negra emancipatória. Esse é um dos caminhos para libertação do futuro negro que acredito, no estar juntes em cooperação para ação nas ruas, quebradas, vielas, favelas, quilombos.



Ipiabas, 19 de março de 2021