• Renan Vicente da Silva

O SUS em nossas vidas: um despertar para saúde pública e gratuita

Atualizado: Mar 23


Uma encantadora e potente produção artesanal de Andressa Gregorio (@gregorioandressa).

As últimas movimentações do governo federal brasileiro, por meio do decreto 10.530, visava promover uma ampla e rápida privatização da Atenção Primária à Saúde (APS). Sendo esse apenas um teste autoritário para aferir a reação da sociedade brasileira, pois os interesses privados estão durante muito tempo em disputa, na perspectiva de precarização dos sistemas universais de saúde, como nosso Sistema Único de Saúde (SUS). Já que é um mercado extremamente lucrativo, e essa presença do estado brasileiro na saúde é um entrave que precisa ser superado. Essa ganância neoliberal não é uma exclusividade do governo atual, existe uma pressão para desmonte do SUS desde seu nascer institucional na Constituição Cidadã de 1988. Contudo, mais recentemente, ecoam com maior intensidade as narrativas dos planos de saúde populares que provocam uma erosão privada no solo público do SUS, fornecendo uma prestação tecnicista e mercantilizada dos serviços de saúde.


Nesse sentido, as movimentações que observamos nas mídias sociais de luta pelo SUS, é uma reação que apresenta diálogo com a pandemia do novo coronavírus. Isso decorre da centralidade de nosso sistema universal, equânime e integral no manejo dessa crise sanitária sem precedentes para nossa sociedade humana. Todavia, também desperta um profundo desconforto em mim, ao sentir uma militância com ausência de sentido no eco da virtualidade, pois devemos nos questionar: quantos de nós somos usuários do SUS? Vivemos e respiramos no cotidiano dos serviços de saúde pública e gratuita? Precisamos ser SUS-dependentes para incorporarmos nossos discursos na prática, e esgotar essa triste hipocrisia de se colocar defensor de algo que não faz parte de sua realidade. Caso essa mudança de comportamento não ocorra em cada um de nós, uma saída da zona de conforto da classe média, em desfazer de seus planos de saúde seletivos e destrutivos, continuaremos reproduzindo a narrativa do SUS para pobres, pretos e periféricos. E nunca alcançaremos a saúde como direito, mas sim, privilégio para alguns poucos brasileiros que conseguem pagar, diante de uma perversa desigualdade social e racial em nosso país.


O SUS pulsa na nossa vida em várias formas possíveis e impossíveis, além de qualquer capacidade imaginativa. Ele está presente na água que bebemos, na comida que comemos, no medicamento que consumimos, na cidade que vivemos, na praia que mergulhamos, no ar que respiramos. É um sistema extraordinário que transborda no viver do povo brasileiro, uma verdadeira revolução para um país periférico na lógica capitalista. O SUS é centro, a saúde privada é periferia. E devemos colocar nossos corpos na luta pelo nosso sistema de saúde, para isso, realize o primeiro ato, seja um usuárie, usuária, usuário do SUS. Tenha orgulho de ser SUS em cada amanhecer. De possuir a coragem de escolher a saúde pública e gratuita, e assim, verdadeiramente, lutar pela sua construção diária na melhor assistência para toda nossa nação. Essa é uma responsabilidade coletiva-afetiva-social que precisa nos envolver para alcançarmos um bem-viver, no qual estejamos de mãos dadas, ocupando um mesmo espaço, na cooperação mútua pela vida.


Por fim, para caminharmos em uma aproximação com o SUS, estar nesse aconchego produtor de redes de acolhimento e cuidado, devemos nos movimentar na prática. Procure uma Unidade Básica de Saúde (UBS) no bairro que viva, conheça como funciona o fluxo de atendimento, faça o Cartão Nacional de Saúde (CNS). Construa uma identidade junto ao SUS, esse é o verdadeiro começo da luta para possuirmos um sistema de saúde público e gratuito com qualidade e excelência. Precisamos ser e fazer o SUS, apenas assim, conseguiremos esperançar na possibilidade futura de conspirarmos num país mais democrático e menos desigual.


Ipiabas, 25 de novembro de 2020

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