• Renan Vicente da Silva

O racismo é o que sustenta o doente Brasil


Ilustração de Dora Gomes

A violenta execução de Moïse Kabagambe, de mesma idade que a minha, 24 anos, foi tão perversa quanto nos tempos da escravidão. Esse período escravocrata que nunca acabou em 13 de maio de 1888. Uma simplória lei Áurea não dá conta do trauma colonial que reverbera em nossa sociedade racista. No tombar diário de corpos negros nos campos, vielas, becos, quebradas, favelas, assim como, na orla das praias cariocas. Todo canto e recanto desse país é racista. Ao reconhecer essa realidade, vou morrendo aos poucos, conjuntamente com as pessoas encantadas negras que ocupam alguma paz em Orum.


Demorei dias, semanas e meses para escrever sobre a morte de Moïse, pois uma parte de mim se foi com ele. Ele não foi o primeiro, e nem será o último a morrer nesse solo podre racista. Mas sua morte ecoou intensamente na minha existência. Seja pelo simbolismo em que foi morto, num quiosque-senzala. Ou pela minha ida nesse espaço, no qual pude sentir uma energia asfixiante. Não conseguia respirar. A dor que emanava naquele lugar era abominável. Nunca havia experimentado essa sensação. Fiquei paralisado por horas, olhando ao redor. De um lado, centenas de pessoas inconformadas ocupando as ruas. Do outro, várias seguindo suas vidas na normalidade. Era mais um negro morto, sem qualquer importância. Já que nossas vidas não existem. Isso tinha sido compreendido por mim, a partir do momento em que esse caso de morte pelo racismo, demorou uma semana para alcançar alguma repercussão midiática. Mas estar ali, foi que obtive a certeza dessa desumanização. Eu morri com Moïse. E morrerei com outras mortes. Até a minha se achegar.


E meu desconforto existencial com esse brutal assassinato só aumentou. Ao escutar o podcast, ‘Angu de Grilo’, pelas urgentes e necessárias palavras da jornalista, Flávia Oliveira, compreendi outros atravessamentos tão nefastos quanto pude enxergar por outros meios. Em sua fala contundente, nos alerta para micialinização e privatização dos espaços públicos, em destaque para as orlas e praias da zona oeste da cidade colonial. Assim como, a precarização dos processos de trabalhos, mais próximos da escravidão, em que não existe nem o direito de cobrar pela sua mísera diária. E a insensibilidade pactuada da branquitude, na qual continuam tomando suas águas de coco, enquanto mais um corpo negro é açoitado e morto. As disputas de interesses são várias e nefastas, realmente, sobrevivemos num país radicalmente racista.


Ainda parecia que não poderia ficar mais abominável todo esse contexto e veio uma hipócrita movimentação da branquitude política-institucional. A prefeitura da cidade do Rio de Janeiro (RJ), considerou uma reparação digna e suficiente, fornecer a concessão do quiosque-senzala para família de Moïse. Eu estava lá, como já relatei, nesse local tão preenchido de sofrimento. E muitas pessoas não depredaram esse espaço, pois foi falado sobre essa proposta. Indo além, iriam fazer um memorial para ele. Minha ingenuidade racial impossibilita acreditar que esse país queira construir memória de uma morte negra. Depois de milhares corpos negros mortos pelo Atlântico e solos brasileiros. O mito da democracia racial, em que somos todes iguais, é a bandeira hasteada nos palácios e ruínas coloniais que ainda estão de pé. Nesse sentido, é completamente insano acreditar em alguma bondade branca, existe apenas dor e morte. Nesse sentido, desloco para centralidade as palavras da extraordinária jornalista, Fabiana Moraes do The Intercept Brasil, em que traz uma lucidez necessária para esse contexto:

“Quero finalizar o texto com outro homem negro vindo, assim como Moïse, da República Democrática do Congo, o professor e antropólogo Kabengele Munanga. Ficou famosa uma entrevista sua na qual ele diz que o racismo é o crime perfeito. Não consigo deixar de pensar como a entrega do espaço do sofrimento para ser cuidado pela própria família do jovem morto é um grande exemplo desse crime que ele expõe: resultado de uma diferença tornada em desigualdade, de uma política neoliberal que costuma morder muito e às vezes soprar um pouco, o novo destino da família é aplaudido fortemente, capitalizando gestões e políticos. É uma das faces silenciosas e perfeitas desse mecanismo: eu ganho créditos e saio bem na foto quando, supostamente, alivio a dor dos outros – mas é uma dor, percebam, que muitas vezes eu mesma provoquei.”

Dentro desse crime perfeito que é o racismo, como aprendemos e compreendemos com o professor Munanga, vamos tentando provocar rachaduras cada vez mais intensas e irreparáveis. Mas nem sempre é possível. Muitos corpos negros estão tombando diariamente. Como o de Durval Teófilo Filho, em São Gonçalo (RJ), que foi morto ao tentar entrar no seu próprio condomínio, por um vizinho militar armado e defensor da justiça com as próprias mãos. O racismo sempre foi um crime perfeito, em que a branquitude sempre sai bem, independente das consequências, esse é um pacto difícil de destruir.


Por fim, nesse caos racial lutamos pelo nosso direito de respirar. Nessas terras em que pisamos é imundada de sangue não-branco. Não vivemos num país acolhedor, como mortalmente descobriu a família do Moïse, fugindo de uma guerra visível para outra intencionalmente invisível. A dor que sinto ao sobreviver num Brasil sustentado pelo racismo me coloca numa ausência de futuro. Muitas vezes não desejo mais continuar caminhando no latejar da ferida colonial. Escrever e acolher estão sendo minhas âncoras existenciais, só não sei até quando. Meu esperançar está na capacidade de estarmos juntes construindo e reconstruindo nas encruzilhadas. Precisamos criar outros amanheceres, ou nada restará para Nós.



Ipiabas, 30 de março de 2022