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  • Renan Vicente da Silva

No Haiti habita as primeiras insurgências dos corpos negros afro-diaspóricos




Ao me deparar com a história sangrenta e revolucionário do Haiti, alcancei mais uma certeza existencial. É nesse chão que habita nossa ancestralidade. Na qual os corpos escravizados foram violentamente trazidos pelo Atlântico negro para América. Esse espaço foi radicalmente colonizado pelos homens brancos europeus, que na busca por novas terras, e na expansão irracional de seus lucros, invadiram e mataram para conquistar. Mas nessa insanidade do capital, se viram mais apodrecidos que o próprio dinheiro. E com muito sofrimento e dor, os corpos negros escravizados insurgiram e revolucionaram para romper com a lógica colonial. Sinto o sangue dos meus antepassados escorrerem em minhas mãos. Para construírem uma república negra. Uma ousadia que torna o Haiti, uma árvore com raízes numerosas e profundas, que transborda para outros solos existenciais.


O Haiti é aqui. O Haiti é agora. Na língua nativa, possui um significado, mais que necessário. Haiti é a “mãe das terras”. É lugar de aconchego nas dores do cotidiano escravocrata. Em que o tronco da liberdade irrompeu no concreto colonial. Numa verdadeira abolição da escravidão. A partir dos próprios corpos escravizados, não de uma falida lei, como em terras brasileiras. E plenamente constitui uma nação negra. Na qual todas as pessoas haitianas eram negras, não segregando pela cor de pele, vão além desse colorismo. Não existe em América um corpo em que deixe de fluir o sangue negro. A morte do pacto da branquitude foi construída no Haiti. Essa mãe que acolhe e recolhe seus frutos.


O medo da revolução haitiana foi tão grande que ecoou na libertação negra em Brasil. Do receio dos corpos escravizados se rebelarem diante da sangrenta opressão da escravidão. Algo que não consigo conceber nessas singelas palavras escritas, pois é uma dor e sofrimento, que transborda da minha existência. Mas ao me colocar nesta escrita, foi só possível, pela morte dos meus mais velhos. Os quais sangraram pelos direitos, deram suas vidas pela minha, assim é uma responsabilidade continuar escrevivendo.


A identidade nacional do Haiti é negra. E por isso, hoje trona-se um país miserável. Já que romper qualquer lógica colonial, promove consequências econômicas severas. E dessa forma, são nessas terras que pulsam uma essencial decolonialidade, e precisamos aprender para criarmos outros futuros possíveis. É mais que urgente renunciarmos desse desejo doentio em sermos a nova europa. Somos povos originários de África. Não podemos esquecer nossas origens, mas sim construir memórias, por mais dolorosas que sejam, é um ato de coragem.


E nesse devir negro que emana no Haiti, o qual forja meu corpo. É que continuo pisando nessas terras, pois a morte apresenta-se enquanto uma única possibilidade nesse sistema que apodrece nosso viver. É com as almas negras que lutaram pelo bem-viver, que continuo gingando nesse mundo. Ou não haveria qualquer sentido para continuar respirando. A retomada do indígena-negro de África está transbordando, aqui e agora.

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Ipiabas, 02 de dezembro de 2022



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