• Renan Vicente da Silva

Meu reflorestar em mais um aniversariar


Arte-imagem do Sankofa (acervo pessoal)

Estou despertando para mais um ciclo existencial. E continuo girando nos círculos da vida, em fortalecimento e envolvimento. Já que para mim, aniversariar é verbo. E verbo é ação. Assim sendo, é um agir diária de circulação entre tantas gentes que caminham nesse devir contínuo do amanhã. Mas sempre com os olhos virados pra trás, como Sankofa, ideograma africano de um pássaro que voa pra frente, sem esquecer de olhar pra trás. Isso significa que só avançamos no futuro, se recuarmos aprendendo com o passado. Nossas vivências são colheitas tão preciosas em nossos solos existenciais. Nelas habitam nosso verdadeiro ser e estar no mundo. E fornecem sentido para continuarmos respirando nessa sociedade doente pelo dinheiro. Minha escrita é uma criação e recriação do escreviver. Não escrevo só, mas conjuntamente com minha ancestralidade negra. E tento cotidianamente reflorestar corpos e mentes, indo além da minha própria existência.


Acredito muito que esses momentos de celebração são importantes para relembramos. A memória é resistência. E nesse resistir vamos construindo nossas próprias histórias, nossas próprias narrativas e nossas próprias experiências, que confluem com as várias pessoas que cruzam nossas encruzilhadas da vida. Me deslocando para outros tempos, que sempre olho e leio, de maneiras diferentes. Me vejo como um ser ainda numa intensa desconstrução, mas com bastante ingenuidade. Meus andares por Ipiabas são memoráveis, entre afetos e dores, os quais não procuro silenciar. Muito pelo contrário, é necessário transbordá-los, já que fazem parte de mim. É lembrar os encontros na escola, os quais produziam diálogos e carinhos, concomitantemente, com violência física-psicológica. É lembrar das festas de aniversário, as quais tornaram-se eventos que acolhiam tantas pessoas próximas e em aproximação. É lembrar da minha mãe-preta que cuidou e cuida de mim com um carinho ancestral, pois seu toque sob minha pele, me desperta para outras emoções e sensações. É lembrar do meu pai-artista que ressignifica todos os espaços que ocupa para um bem-viver, como a Praça Marielle Franco é em si. É lembrar do menino Renan, a partir do meu corpo negro afro-diaspórico, em desconstruções e construções infinitas para outras possibilidades de vidas, em respiros coletivos. Essas ligeiras lembranças moldam esse ser que escreve e vive, aqui e agora.


Estou cada vez mais envolvido na perspectiva relacional do dengo. Esse existir Bantu, da mãe África, em que dengo é um pedido de aconchego no outro em meio ao duro cotidiano, também é um aconchego de esperança nos desconfortos da vida. Nesse aquilombamento sensível-afetivo vou acolhendo as pessoas que atravessam e caminham comigo. São tantas e diferentes gentes que plantam suas sementes no meu solo existencial. E permitem germinar suas raízes com profundidade. Isso fornece um sentido para amanhecer frente um sistema adoecido. Só consigo estar em pé, ao estar com o outro ser, seja ele humano e mais que humano. Na companhia dos orixás me fortaleço com tanto axé, essa energia vital que nos une, enquanto seres singulares. Esse transbordamento de mim para com outras vidas, me faz agradecer pelo ontem, hoje e amanhã. A gratidão é um sentir sincero e necessário que nutre os cantos e recantos mais conhecidos e desconhecidos da minha existência corporal.


No ano passado, estive posto enquanto um corpo morto, principalmente devido ao adoecimento físico de minha mãe. De estar nessa linha tênue do sobreviver. Além da própria asfixia colocada nesse mundo brutalmente racista. E pensar e sentir a partir do morrer, me fez compreender sobre esse processo de metamorfose. Do recolhimento para o transbordamento. Dessas transformações que me permitem hoje ser borboleta, e voar com os sopros dos ventos. Habito num corpo mais que vivo. Latejo num corpo mais que vivo. Pulso num corpo mais que vivo. E seguirei direções que desabrochem meus encantos por aqui e acolá.


É mais que urgente celebrarmos esses simples marcos da vida. Apesar de todo um contexto aprisionante, existimos para além disso, fraturando a realidade com amar e afetar. Meu nascer é insurgente e desobediente. Nesse sentido, vou me reflorestando para reflorestar outras pessoas que cruzarem nossos caminhos da vida. Só assim conseguiremos esperançar coletivamente, com acolhimentos e reconhecimentos, pois estar juntes é revolucionário-solidário. Continuarei circulando com muito dengo-axé para compartilhar em cada olhar e abraçar, isso é o que faz da vida ser vivida na sua essência.

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Ipiabas, 05 de maio de 2022