• Renan Vicente da Silva

Meu afetivo aniversário em tempos de pandemia

Atualizado: Nov 4


Foto da mesa da nossa cozinha com alguns pasteis deliciosos, cervejas artesanais de Ipiabas e os chapeis representam os convidades.

Hoje foi o dia que despertei com um dos cantos de parabéns mais lindos da minha ligeira vida. Da minha mãe. Com uma felicidade e alegria que preencheram de amor meus primeiros minutos do despertar mais velho. Depois fui em direção para a natureza que está sendo central em minha vida. Sentir o som dos ventos balançando as folhas das árvores. As conversas cantadas entre os pássaros. O sol penetrar e esquentar meu corpo. Me permitir sentir parte desses movimentos da resistente Mata Atlântica. Essa quarentena está me fornecendo um dos maiores presentes que poderia experimentar. A desaceleração da velocidade do mundo. De habitar novamente meu lar. Em Ipiabas. Um território que ainda é floresta.


Esse é um dos melhores dias de aniversário da minha vida. Nesses 23 anos de existência. Desde 05 de maio de 1997. Poder estar sendo envolvido com tanto carinho pela minha mãe e pai. Nos reconhecer diariamente. Nos afetar diariamente. Nos amar diariamente. Estou me reconectando com minhas origens. De onde eu vim. E assim construir para onde eu vou. Essa construção das minhas memórias. Para poder viver nesse presente que me permeia. E produzir um futuro para continuar existindo. De compreensão das minhas trajetórias subjetivas. Quem eu sou? Quais são meus anseios nessa vida? Quais serão as minhas lutas?


Esse ser Renan está em intensa transformação. Em processos de desconstrução e construção. O ser vegetariano. O ser negro. O ser gay. O ser pobre. O ser universitário. O ser ao invés de ter. A palavra escrita habita em mim intensamente nessa pandemia. Essa capacidade de expressão que não conhecia diante das correrias do cotidiano. Esse imediatismo de viver que nos limita. Um viver que nos desumaniza. Um viver que nos dessensibiliza. Nossos sentimos são nossa mais potente forma de singularidade humana. E devemos torna-los central em nossa vida. Esse amadurecimento emocional é necessário. Nos ajudará a lidar com as próximas situações-limites que nos colocam em crise existencial.

As minhas lutas serão pela ocupação do espaço público e gratuito. Devemos movimentar as estruturas para que ocorre alguma mudança institucional. Uma outra formação é possível. Que nos afete. Que nos toque. Que nos aproxime da realidade. Uma educação libertadora. Como defendia Paulo Freire. Uma dialogicidade nas trocas de saberes. No compartilhar de experiências. No comunicar com outro. Hoje também é dia do comunicador. Me considero um modesto comunicador. Que utiliza as palavras escritas para expressar meus sentimentos e opiniões. De romper um silêncio para provocar reflexões em tempos tão difíceis que vivemos. E poder viver nesses tempos nas redes sociais um real encontro com meus amigues e familiares. Aqueles que escutam as singelas palavras que comunico. No hoje estão enviando várias mensagens com muita carga de amor e afeto.


Não sou o mesmo do início dessa pandemia. Nem sou igual ao Renan de 23 anos atrás. Isso torna a vida encantadora. Essa nossa capacidade de sermos outros ao longo dessa jornada que convivemos com a incerteza de sabermos quando acaba. A morte é nossa finitude da vida. Porém é uma insegurança que nos permeia. O novo coronavírus demonstra que essa morte pode ser solitária e vazia. Sem identidade. Sem dignidade. Sem despedida. Um tipo de morte que já era realidade nas favelas. A política de morte do estado brasileiro é cotidiana. E dialoga com as mortes atuais. A diferença é a visibilidade fornecida aos mortos dessa pandemia. E o silêncio das mortes nas vielas dos territórios marginalizados.


Fico feliz de poder estar forjando minhas palavras escritas no dia que completo mais uma ano de existência. De poder estar bebendo uma cerveja artesanal de Ipiabas. Uma forma de fortalecer a economia local. Um consumo mais consciente e solidário. Ao lado da minha mãe e pai. E de tantos outros pelos meios virtuais. Não poderia ter melhores companhias. As quais não seriam possível. Se não fosse o isolamento físico que estamos vivendo. Esse é um potente ponto positivo. Poder estar com essas pessoas que me promoveram os primeiros atos de acolhimento e cuidado. Uma alegria transborda em meu coração. É o melhor aniversário da minha vida. É um estar juntes nunca experimentado em sua completude desde que me conheço. Esse é o meu prazeroso aniversário em tempos de novo coronavírus. Espero que tenham lindas lembranças e laços afetivos fortalecidos nessa pandemia. É uma oportunidade que nos está sendo posta. Um reinventar permanente em busca de outras formas de viver.