• Renan Vicente da Silva

Como Zumbi continua existindo em Nós?

Atualizado: 23 de dez. de 2021



Zumbi dos Palmares. Esse é o nome e sobrenome-quilombola do nosso mais velho insurgente e revolucionário. Sua morte é uma comemoração da vida negra na insurreição de si. Dia 20 de novembro de 1695. Um dos maiores quilombos ocuparam as terras alagoanos, na Serra da Barriga. O maior canto e recanto de esperança para o povo negro gritou frente uma sociedade escravocrata-racista, que ainda persevera nos tempos atuais. Nunca fomos libertos no dia 13 de maio de 1888. Ainda existe muito sangue nas mãos da princesa Isabel. E toda branquitude que urra pelos privilégios imperiais. Um jorrar do nosso sangue negro que produz uma anemia racista. Mas como insiste Conceição Evaristo, inspiradora escritora negra, “a gente combinamos de não morrer”. E na luta pela busca de direitos pela vida. Respiramos em mais um dia da consciência negra. Esse momento deveria existir para despertar nossas negritudes silenciadas diante de uma política nefasta da branquitude. Até quando iremos resistir em pé?

Nesse devir do corpo-quilombo criado e encantado por Palmares. E tão bem descrito por Beatriz Nascimento, intelectual negra brasileira:

“Quilombo é uma história. Essa palavra tem uma história. Também tem uma tipologia de acordo com a região e de acordo com a época, o tempo. Sua relação com o seu território.
É importante ver que, hoje, o quilombo traz pra gente não mais o território geográfico, mas o território a nível (sic) duma simbologia. Nós somos homens. Nós temos direitos ao território, à terra. Várias e várias e várias partes da minha história contam que eu tenho o direito ao espaço que ocupo na nação. E é isso que Palmares vem revelando nesse momento. Eu tenho a direito ao espaço que ocupo dentro desse sistema, dentro dessa nação, dentro desse nicho geográfico, dessa serra de Pernambuco.
A Terra é o meu quilombo. Meu espaço é meu quilombo. Onde eu estou, eu estou. Quando eu estou, eu sou." (Jornal do MNU, Nº 17, set/out, p. 6; 1989).

Ao sermos quilombos são reverberadas nossas ancestralidades negras aprisionadas e traficadas para além do Atlântico negro. Nos mares e terras colonizadas pelo poder e o dinheiro. Mas que sempre germinou insurreições afro-diaspóricas, provocando fraturas no sistema escravocrata para outras possibilidades existenciais. Dentro desse contexto, nossas vozes alcançam alguma centralidade no mês considerado negro, no qual existe mais luta que comemoração. Sendo urgente uma posição na encruzilhada da vida para fluirmos em alguma possibilidade de afrofuturismo. Na libertação dos conhecimentos de Nós para Nós. E também irmos ao ocupar outros espaços possíveis e impossíveis. Como nas Universidades brasileiras, as quais são estruturantes dos privilégios da branquitude, em que desconfortamos na presença dos nossos corpos negros. Saímos das senzalas e lutamos para alcançarmos alguma centralidade na pluralidade dos Brasis. Nossos quilombos existirão nos interiores das feridas abertas pelo estupro da mãe África. Para reflorescer na aridez colonial. As raízes negras são mais profundas que qualquer apagamento doloroso de nossas histórias. Seguimos germinando nos mais diversos cantos e recantos.

Em João Cândido habita o Zumbi do século XX. Aos que não conhecem nosso revolucionário almirante negro, lhes apresento de forma ligeira. Foi o líder da Revolta da Chibata em 1910, a qual ocorreu devido ao racismo nas hierarquias da marinha brasileira. Nesse contexto, nosso mais velho, não se silenciou diante das “condições semelhantes” à escravidão que os oficiais negros estavam submetidos. Como aplicação de chibatadas enquanto castigo físico. E assim, promoveu uma rebelião para acabar com essa tortura, que nunca cicatrizou. Nossos corpos negros ainda são chicoteados. Em cada operação policial violenta nas favelas. Em cada perseguição de seguranças nos espaços capitalistas, como nos shoppings e aeroportos. Em cada olhar branco ressentido pela perda de privilégio ao ver um negro na Universidade. As chibatas estão empunhadas nas mãos da elite branca. E nada mudou na sociedade racista brasileira desde a falsa abolição da escravidão negra. Precisamos reconhecer o brutal racismo que atravessa nossos corpos e mentes. Essa consciência racial vai muito além de novembro. É um exercício transcendental que ecoa nos caminhos percorridos pelos nossos mais velhos. Zumbi está vivo em Nós. E continuará presente em cada respirar negro afro-diaspórico nos mais diversos territórios.



Ipiabas, 23 de dezembro de 2021