• Renan Vicente da Silva

Bacurau e o Novo Coronavírus: as realidades que nos permeiam

Atualizado: Mar 23


Cena do filme 'Bacurau' (2019)

A imersão no filme ‘Bacurau’, dos diretores Juliano Dornelles e Kleber Mendonça, foi um processo gradual. Confesso que no início não despertou muito de minha sensibilidade, foi transcorrendo como se fosse mais um filme qualquer que estava assistindo. Assim como a dimensionalidade do novo coronavírus. E ficava pensando: O que esse filme tem de tão significativo para causar toda essa mobilização das pessoas? Da mesma forma que me questionava: O que esse vírus tem de tão significativo para causar todo esse isolamento físico das pessoas? Não consegui enxergar isso nos primeiros minutos desse filme. Como não consegui enxergar as dimensões nas primeiras semanas de início dos casos do novo coronavírus no Brasil, mas tudo foi mudando. Essa mudança no filme ocorreu na minha compreensão daquele território, dos sujeitos que ali vivem, em um estado de coletividade e comunicação perdidos em nossa sociedade. Já na pandemia a mudança ocorreu na minha apreensão diante do aumento consecutivo nos números de casos e as projeções de rápida ascensão da curva de contágio que provocarão um, possível, colapso do Sistema Único de Saúde (SUS) no nosso país.


Durante meu imergir na narrativa do filme. Não conseguia deixar de olhar a liderança pautada na consciência de si dos habitantes de Bacurau. Sua união e organização em prol da Revolução. A real Revolução. Esse lampejo ocorreu na cena da chegada do prefeito na cidade. E todo desencadeamento do comportamento coletivo desses sujeitos. Foi algo lindíssimo de se ver. Eu era outro diante desse enredo simples e revolucionário.


No filme escutei as lideranças comunicarem seus saberes sobre os alimentos vencidos e a medicalização com psicofármacos. Medicação para tratar transtornos mentais. Sendo que essa comunicação ocorreu em uma perspectiva dialógica. Sem impor seus saberes. Permitindo a livre escolha dos sujeitos desses produtos. Esses foram enviados pelo prefeito, sendo essa uma política de Estado que ocorre cotidianamente nas favelas e outros territórios marginalizados desse país. Uma política de medicalização da dor coletiva. Na qual os médicos estão prescrevendo sem a devida criticidade medicamentos tarja preta como se fossem algo banal, pois é mais fácil dopar uma população de negros, pobres e favelados do que construir juntes políticas públicas. As quais visam fornecer uma vida digna desses sujeitos à margem de qualquer direito de existência.


Na vida real ouço diariamente o déspota do Palácio do Planalto recomendar a irresponsável utilização de medicamentos, como a cloroquina e a hidroxicloroquina, que ainda estão em testes experimentais e ensaios clínicos. Não existe evidência científica comprovada no tratamento do novo coronavírus. A medicalização da sociedade é a solução imediatista que governos ultraliberais encontram para retornar suas atividades econômicas em detrimento da vida.

As várias questões que o filme abarca permitem uma discussão intensa e produtiva diante de uma realidade que já vivemos. E que podemos vir a viver mais drasticamente no futuro. Esse futuro chegou. Estávamos em uma cegueira da ignorância em nossos confortáveis padrões de consumo. Até o momento em que um vírus rompeu nossa cegueira e nos permitiu enxergar as mazelas sociais e as desigualdades que nos compõe enquanto sociedade brasileira. Fica evidente a nossa fragilidade diante de um microrganismo unicelular que apenas está desempenhando seu papel biológico. De se multiplicar e continuar sobrevivendo. A culpa não é do novo coronavírus, mas nossa. Falhamos e continuamos falhando enquanto sociedade.


Irei focar na distopia central trabalhada no filme que é a violência como uma mercadoria. Essa temática é exposta de maneira gradual no longa-metragem. Isso provoca uma elevação contínua de nosso nível de consciência no decorrer das cenas. Sendo essa uma jogada muito interessante e desconfortante em alguns momentos, pois ouvi uma fala na sessão que estava, a qual dizia: “estou assistindo o mesmo filme?” Devido à mudança radical do contexto bucólico de cidade do interior para a realidade desse futuro que é marcado pela exposição da violência para obtenção do capital. Sempre me lembro das ideias de Marx que dizia que tudo vira capital.


A distopia que vivemos decorre da nossa ganância. No qual animais selvagens tornam-se comida em um mercado exótico de Wuhan para alimentar uma elite chinesa. A lucratividade era extremamente alta por isso nada foi feito. Apenas deixaram as coisas transcorrerem. O capital sempre teve prioridade e acredito que depois dessa pandemia ainda terá em nossa sociedade. Esse pessimismo está presente em mim. Mas me permito sonhar com uma outra sociedade possível.


É para algumas pessoas difícil de aceitar que essa realidade de “jogos vorazes” aconteça na nossa sociedade, mas tenho uma triste notícia. Já está acontecendo. A violência é um mercado na nossa sociedade atual. É só enxergamos a milícia, a qual já descobriu isso fornecendo segurança de si mesma. Temos, também, a indústria da segurança privada que é comandada por altos coronéis da polícia militar, que ganham cada vez mais quando temos mais violência pela cidade. A marca mais objetiva de que já estamos caminhando para os tempos de Bacurau é ouvir falas como “bandido bom é bandido morto” ou “direitos humanos para humanos direitos”. Isso reverbera no nosso sistema penitenciário. Um espaço que fere direitos continuamente. O qual já é faz muito tempo um mundo distópico de Bacurau.


Essa realidade é comprovada pelos enormes massacres que ocorrem dentro dessas instalações do Estado. Sendo mais evidenciado o massacre do Carandiru, que de certa forma chocou a sociedade brasileira da época, pois transgrediu os muros dessas instituições distópicas pela visibilidade midiática. Esse triste cenário ocorreu nos dias de hoje, na penitenciária de Altamira, maior município do Brasil, localizado na Amazônia, em que tivemos um massacre que chegou a superar ao de Carandiru, mas não tivemos essa visibilidade. Talvez porque não foi em São Paulo ou talvez estejamos tão insensíveis frente ao outro que estamos vivendo em tempos de Bacurau.


A visibilidade é uma potência para o novo coronavírus. Isso decorre de ser um vírus que não realiza recorte de raça, gênero, sexualidade ou classe social. Apenas infectada um corpo. Esse vírus chegou em nossas terras derivado da elite e classe média que estavam em suas viagens ao redor do mundo globalizado. Porém, serão os corpos negros, pobres e favelados que mais sofreram. E já estão sofrendo. Esses corpos que estão sendo infectados servindo os senhores e senhoras da “Casa Grande” de Gilberto Freyre. Que resiste e existe em nosso país escravocrata. Sentirão a miséria se acentuar quando forem despedidos no adoecimento. Sentirão a miséria se acentuar na ausência de proteção social digna do estado brasileiro. Sentirão a miséria se acentuar no endividamento coletivo das famílias. O qual garantirá a alta lucratividade do sistema bancário.


A insensibilidade é muito abordada no enredo do filme diante da escolha de uma cidadezinha no interior do sertão nordestino para realizar um reality de massacre. Em um país de terceiro mundo. É permitido matar uma criança ou um adolescente ou uma mulher ou um idoso ou qualquer outro ser humano que não seja pertencente a raça branca ariana. Esse preconceito racial ficou muito bem marcado na cena da mesa, em que os brasileiros se dizem do sul e por isso são “brancos”. São na verdade vítimas de um política de embranquecimento. E acabaram mortos como os outros. Ser brasileiro é ser descartável. Nossa miscigenação é vista como sujeira. Devemos romper essa violência de nós contra nós mesmos. Eu vejo como potência nossa miscigenação. A potência da diversidade que compõem nossos corpos. Somos vários em um só. Isso nos torna oriundos de várias ancestralidades apagadas. Dos negros africanos escravizados. Dos vários povos indígenas exterminados. Devemos resgatar nossas raízes.


A insensibilidade nos tempos de pandemia decorre da postura do déspota do Palácio do Planalto que não mensura as consequências de suas falas. Essas palavras de morte que já matam e matarão tantos outros brasileiros. Sua insanidade de que devemos voltar a ocupar nossos cargos de trabalho para promover vida as engrenagens perversas da economia capitalista. Não iremos sair de casa. O distanciamento físico e quarentena são necessários para proteger nosso povo e o SUS.


A forma que acredito para podermos mudar esse cenário é aprendendo com os sujeitos de Bacurau. Cada um possui sua singularidade. E estão e lutam em coletivo. A comunicação é sua arma mais potente para vencer as forças do ódio. E mesmo sem sinal para comunicação. Eles repensam sua forma de falar com o outro e de se encontrarem. Não deixam ninguém para trás. Eles são seres simbióticos que coexistem frente ao mundo externo marcado pela violência televisionada por meio dos extermínios em massa. A esperança está no medo. Precisamos ficar com medo para podermos agir. Não dá mais para ficar descrente frente ao mundo de Bacurau, pois ele já permeia cada um de nós dentro de nossos contextos de privilégios e vulnerabilidades. A distopia é realidade. Precisamos estar juntes enquanto um ato de amor, cuidado e acolhimento.



A forma que acredito que podemos mudar esse cenário de pandemia é aprendendo com o novo coronavírvus. Que nos colocou em quarentena para podermos navegar nos nossos mares interiores. Nas nossas subjetividades. Estamos mais sensíveis. Experimentando mais quem somos do que o que temos. Em constante processo de ressignificação da arte do encontro. O isolamento é físico, mas não social. Estamos experimentando algo que nunca vivemos. Isso nos provoca sentimentos como ansiedade, angústia e medo. São saudáveis e necessários para sobrevivermos ao mundo de incertezas e inseguranças. Essa potência de sentimentos nos relembra nossa humanidade. Nesse encontro com nós mesmos podemos fortalecer o encontro com o outro. Não dá mais ficar descrente frente ao mundo do novo coronavírus, pois ele já permeia cada um de nós dentro de nossos contextos de privilégios e vulnerabilidades. Uma outra sociedade é realidade. Precisamos estar juntes enquanto um ato de resistência, resiliência e solidariedade.

Barra do Piraí, 10 de abril de 2020

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