• Renan Vicente da Silva

As eleições 2020: qual é a urgência do voto?

Atualizado: Mar 23


Um registro de um eleitor e sua filha na urna eletrônica (Foto: Daniel Ferrerira/ Metrópolis).

No dia 27 de setembro de 2020, em meio a uma pandemia sem precedentes para nossa sociedade humana, começou oficialmente a campanha eleitoral municipal. De forma bastante curta, pois está em vigor a reforma eleitoral que apresenta principalmente, a ausência de financiamento privado e extingue as coligações partidárias nas candidaturas legislativas, tanto de vereadores quanto deputados, evitando a ocupação do cargo por pessoas não eleitas democraticamente. Iremos experimentar uma outra movimentação político-partidária, assim, considero essencial sermos protagonistas do futuro de nossas cidades.


Esse rearranjo é um ecoar das jornadas revolucionários de 2013, as quais foram cooptadas pelo poderio econômico, desencadeando no golpe contra Dilma Rousseff, pois era necessário um basta no crescimento extraordinário do Brasil. Um país da periferia do capitalismo era inadmissível estar presente na capa da revista The Economist, era uma utopia que não podia continuar. Dessa forma, a estratégia foi contaminar as manifestações de rua, que iniciaram com uma justa indignação frente aos custos dos transportes públicos e o direito à cidade, e depois transbordaram para uma narrativa de descrédito na classe política. Esse discurso foi muito intensificado com a deflagração da operação Lava Jato em 2014, uma verdadeira organização de promotores e juízes que representavam mais seus interesses privados do que os públicos, como na condenação política e utilização parcial das delações premiadas. O desvelar para essa verdade está muito bem explicitado na série de reportagens Vaza-Jato do The Intercept Brasil. Um despertar que precisamos alcançar para não ficarmos imersos nas palavras de falsos justiceiros.


Nesse contexto, nasceu o lava-jatismo, um senso ideológico de justiça sem balança, em que tudo é permitido, para acabar com a corrupção política sistêmica de nosso país. Surfaram nessa onda justiceira, a extrema direita, tanto figurada pelo bolsonarismo quanto o Movimento Brasil Livre (MBL), os quais estão desalinhados nos últimos tempos. Desde que o idealizador desse projeto de poder, o ex-juiz federal Sérgio Moro, foi devorado pelas forças bolsonaristas. Um monstro criado com sua responsabilidade. Contudo, quem sofre com maior intensidade as consequências da corrupção reorganizada aos interesses do lava-jatismo é o equilibrista povo brasileiro. Como nos escreve, o jornalista Juan Arias, em sua coluna no El País:


“Se os pecados da Lava Jato não redimem os corruptos, tampouco uma vitória nas urnas autoriza a tirania e a perseguição aos diferentes e mais expostos a serem escravizados. A classe brasileira que está em boa situação, a que nunca passou necessidades e pôde até dar caprichos aos seus filhos, os políticos e juízes corruptos, nunca compreenderá a imensidão da dor acumulada no coração dos que trabalham e não conseguem nem uma vida digna.”

As classes oprimidas, os corpos negros, os moradores de favelas que precisam lutar por uma mínima dignidade de vida, são os mais atingidos pelos políticos e juízes corruptos. Já que os dinheiros destinados para tentar proporcionar uma melhor qualidade de vida dessas pessoas são os principais desviados. A miséria é consequência direta da corrução. E mais recentemente, uma fala do anti-presidente da república, pois fim simbólico a cruzada lava-jatista: “Acabei com a Lava Jato, porque não tem mais corrupção no meu governo.” Será mesmo? Bom, na passagem bíblica, “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João, 8:32), a qual é bastante citada por ele poderá nos auxiliar na compreensão das movimentações próximas. Acredito que suas verdadeiras intenções corruptas e genocidas são evidentes. E contaminam nossos corpos doentes de Brasil.


Diante disso, é legítimo um processo de descrença na participação política, no acreditar na potência de transformação do próprio voto. Todavia, esse foi um direito conquistado com muito sangue derramado por aqueles que idealizavam a democracia representativa.


Nós, povo brasileiro, possuímos uma responsabilidade para com o amanhã das próximas gerações, sendo um compromisso existencial nosso na libertação do futuro. Desse modo, precisamos estar abertos para conhecer e questionar as propostas das candidaturas, além de ecoarmos nossas demandas coletivas em cada município. Essa é uma oportunidade posta para elegermos pessoas que realmente representam a diversidade brasileira. Dos vários Brasis silenciados em processos de morte. É central um grito de basta aos mesmos corpos políticos tradicionais, os quais são de homens brancos conservadores, héteros, cis gêneros, da classe média alta e que estão inseridos nas estruturas de poder local.


Por fim, solicito que conheçam as candidaturas negras, faveladas, quilombolas, ribeirinhas, indígenas, femininas, trans gêneros. Em diálogo, recomendo fortemente a leitura da Agenda Marielle Franco, que é um documento que reúne de forma bastante potente o fazer político dessa mulher, na perpetuação de seu legado. Devemos cobrar das candidaturas um compromisso com essa agenda. Não podemos deixar as forças tradicionais da branquitude colonial corromperem ainda mais nossas cidades, uma outra ocupação política é urgente. Seu voto é a urgência que precisamos para começar a trilhar uma outra sociedade possível.

Ipiabas, 11 de outubro de 2020