• Renan Vicente da Silva

As águas que afogam os Brasis: reforçam nossa destruição do planeta na crise climática




As chuvas que caem sob os solos brasileiros são intensas e verdadeiras. E as enchentes não são naturais, como nada é no sistema capitalista-neoliberal. São produtos da ganância pelo dinheiro, já que as represas precisam ser esvaziadas para não entrarem em colapso. Ou seja, aprisionamos os rios na usurpação da sua força para obtenção de energia elétrica. E quando as hidrelétricas não conseguem mais conter a capacidade de manejar sua estrondosa potência, liberam suas águas sem medir as consequências. Apenas calculam seus lucros e prejuízos. E quem mora nas cidades abaixo dessas construções egocêntricas da humanidade? As pessoas mais pobres em dinheiro, marginais e descartáveis.

O apartheid climático já está acontecendo. Não é apenas um termo teórico abstrato, é material. E os sistemas de opressão compreendem esse fenômeno, e estão se adaptando aos danos financeiros. São os povos brasileiros que ecoam em dor e sofrimento pela destruição e ambição da minoria rica. Suas medíocres existências estão provocando mortes ao redor do mundo. Essa segregação acontece, resumidamente, no primeiro momento, com aqueles que menos contribuem para o colapso climático. Porém, os que mais estão sofrendo diretamente suas consequências perversas, aqui e agora. Ao ver e sentir as imagens das pessoas se afundando nas enchentes, enxergo um país consumido pela ganância. Não é culpa da natureza. A culpa é nossa. Da humanidade doente pelo dinheiro. O sentimento de impotência também me envolveu. Uma pessoa mais velha arriscar sua própria vida para resgatar seus documentos. Algo completamente anti-natural, mas justificável no mundo colonial. Em que só existimos a partir dos papeis fúteis que comprovam nosso número como gado humano. O que mais precisamos vivenciar e sofrer para rompermos com essa lógica?

Um outro ponto em articulação que não podemos esquecer nessas movimentações é o racismo ambiental. Além da perspectiva social, existe a racial como também de gênero. Indissociáveis entre si. Irei focar na racialização do debate climático. Os corpos indígenas e negros são os mais acometidos nessas crises produzidas pelo antropocentrismo branco. São aldeias e quilombos os primeiros espaços submersos. Conjuntamente com muitas cidades interioranas. Acompanhamos com maior destaque nas mídias sociais e convencionais o sul da Bahia. A casa comum dos povos brasileiros está completamente devastada. As ruas retornaram a ser rios. Não consigo descrever o que vi pelas minhas telas, só tento imaginar o que essas pessoas estão vivendo diante de seus lares alagados. Mas enquanto um território assentado no axé, elas estão envolvidas no aconchego dos orixás. E seguem insistindo em existir e viver.

Dentro de todo esse contexto, o anti-presidente da república estava de férias. Como muitos da classe média branca brasileira. E mesmo sabendo do sofrimento de milhares de pessoas brasileiras, continuava compartilhando sua intensa programação de férias nas mídias sociais. Como muitos da classe média branca brasileira. Não basta afogar o pobre, é necessário reforçar sua condição miserável. Antes de matá-lo. Esse é o fetichismo-sadomasoquista da branquitude. A mediocridade do ser branco que impõem sua superioridade pelo acúmulo de dinheiro. Onde está também sua prisão. Nesse metaverso criado pela vida não-natural desses seres menos humanos. Que estão se arrastando em seus condomínios, shoppings e parques de diversão. Tão anestesiados da realidade do mundo doente em que são os principais patógenos. Mas não menos conscientes das suas culpas e responsabilidades. Sendo assim, é importante reforçar o pensamento e posicionamento da encantadora jornalista e escritora, Eliane Brum: “Bolsonaro é criatura, não criador”. Ele é uma personificação dessa classe média branca brasileira. Seu comportamento é calculado para essa classe média. Sua ânsia por mais poder através das milícias são desejos dessa classe média. Em ser rica, ser opressora. Isso nos ajuda a compreender, em partes, e dentro da minha singela perspectiva, toda monstruosidade e insanidade de Bolsonaro. Ele é o corpo empodrecido do capitalismo periférico brasileiro.

Ao escrever este texto, consegui vomitar quase toda minha náusea pela classe média branca brasileira que tira férias no fim do mundo. No afogar dos Brasis. Sendo o momento em que mais necessitamos despertar para a solidariedade. Uma verdadeira atitude solidária. Que seja uma doação em dinheiro. A distribuição de renda começa com seu primeiro real entregue ao outro. Não apenas pontualmente. Nas tragédias brasileiras. Mas sistemática e afetivamente ao longo de nossa existência. Indo mesmo além do dinheiro em si. Estando de corpo presente nas ações que ocorrem nos seus territórios. Assim como, fazendo a uma comida na sua casa e entregando para as ruas-rios com fome. É urgente agirmos na construção de uma sociedade menos perversa. Não podemos nos afogar nas águas da ganância. A mãe Terra e seus seres encantados dependem de Nós. As crises climáticas e humanitárias só serão interrompidas pela nossa desobediência na ditadura do dinheiro.