• Renan Vicente da Silva

A resistência dos corpos favelados na moda [documentário: ‘Favela é moda’]

Atualizado: Mar 23


Foto de divulgação/ Festival do Rio 2020

Nesta escrita irei compartilhar alguns envolvimentos despertados ao longo da encantadora narrativa do documentário, Favela é moda (Emílio Domingos, 2019). É uma coletânea de histórias de jovens favelados com sonhos e anseios que desabrocham na oportunidade posta pela Jacaré Modas, atual Jcré Facilitador, criado por Júlio César da Silva Lima. De porteiro a um construtor de inéditos viáveis na nova geração da favela. Como afirma sobre o caminho revolucionário da moda que já pulsa nos corpos da favela


“A moda é uma tendência, ela muda e avança, e muitas vezes até a favela entender essa linguagem, que tem mudanças acadêmicas constantes, demora quando ele já pratica há muito tempo e a moda usa como discurso inovador. Há muitos e muitos anos eu vejo minha mãe, preta, pobre e favelada sendo sustentável, e aí ela não entende deste discurso, e aqui que a Jcré entra, trazendo acesso, compreensão, aproximação e oportunidade e não inclusão social porque quem inclui depois desinclui”

É encantador escutar as falas empoderadas de Júlio César, as quais produzem um esperançar nos olhos de cada jovem que busca opções de escolhas perante a vida de processos de morte na favela. Construindo outras possibilidades de respirar dos corpos negros, pobres e favelados. E vamos acompanhando com intensidade as singularidades no mar de diversidades. Existem corpos negros, brancos, femininos, masculinos, gays, lésbicos, trans, cis, fluídos. Evidenciando que a favela apresenta uma multiplicidade de identidades que ecoam cada dia mais suas vozes, como sentimos no documentário. A moda lateja em seus vestires, descontruindo um estereótipo das roupas desses jovens moradores das favelas cariocas, as quais dialogam com seus interiores. Um verdadeiro conhecimento de si para o mundo externo. 


Muitas cenas são repletas de desabafos do viver na realidade da periferia do capitalismo, com dinâmicas que promovem exatamente essa expressão dos sentimentos, uma inspiração política no desperta para centralidade da favela em seus corpos. Assim, reforço que Jacarezinho é centro, Maré é centro, Manguinhs é centro, Alemão é centro, Ipanema é periferia, Leblon é periferia, Copacabana é periferia, Botafogo é periferia. Uma necessária inversão dos territórios do Rio de Janeiro, para libertar nossas mentes. 


Por fim, me senti acolhido e cuidado ao longo de todo processo de formação dos futuros jovens modelos até o desfile para branquitute carioca. Foi uma aproximação concebida em pouco mais de uma hora, com muita felicidade que transbordou de mim ao enxergar as belezas marginalizadas alcançando centralidade, sem apagamento de suas raízes faveladas. Apenas desejava que a história de Júlio César da Silva Lima fosse contada com maiores detalhes, mas acredito que daria um filme inteiro para sua trajetória. Essa semente plantada nos solos existenciais da favela produz resistência em cada amanhecer. 


Ipiabas, 09 de novembro de 2020

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