• Renan Vicente da Silva

A Praça Marielle Franco em Ipiabas: uma semente em germinação

Atualizado: Mar 23


Nova placa da Praça Marielle Franco em Ipiabas/ foto de Jéssica Rossome

Neste dia 14 de março de 2021, completamos três anos sem respostas, sobre QUEM MANDOU MATAR MARIELLE FRACO? E POR QUÊ? Essas perguntas que precisam encontrar suas respectivas respostas. Não podemos mais continuar silenciados, seguindo nossas vidas como se nada tivesse acontecido, pois tudo aconteceu. O fim de qualquer caminho outro na existência negra fora dos espaços marginalizados. É preciso se posicionar, lutar, gritar pelo direito dos corpos negros respirarem, ainda que numa sociedade racista pareça quase inviável. Já que existe sempre um joelho branco em nossos pescoços negros, uma bala branca em nossas cabeças negras, um chicote branco em nossas costas negras. Por quanto mais tempo conseguiremos continuar sobrevivendo?

Marielle Franco é um girassol que semeia um esperançar transcendental, foi e é uma mulher, negra, lésbica, cria da favela da Maré, vereadora eleita da cidade do Rio de Janeiro (RJ). Foi covarde e violentamente morte numa rajada de 13 tiros, dos quais 4 perfuraram seu corpo. Desses tiros, o primeiro atingiu sua coragem como mulher negra e periférica, de ocupar um espaço central na política institucional da capital colonial. O segundo atingiu sua multiplicidade de vozes marginais presentes na sua corporalidade. O terceiro atingiu sua família e pessoas próximas, na sensível filha, mãe, esposa, amiga. E o quarto atingiu a todes nós, mesmo sem qualquer aproximação, sentimos como se conhecêssemos ela de outra vida. Desse modo, fomos para as ruas protestar, exigir justiça para essa violência que sangrou nos vários Brasis.

No renascer em forma de semente nos mais diversos espaços possíveis e impossíveis. Como na Praça Marielle Franco em Ipiabas, distrito de Barra do Piraí, na qual manifestamos, nessa significativa data de três anos sem respostas, com nossos cartazes na preservação da sua memória enquanto um ato de resistência. Nesse sentido, a morte de Marielle, a transformou em encantada para continuar nos guiando, cuidando, aconchegando no caminhar a uma outra sociedade. E aproveitamos essa data simbólica de indignação para recolocarmos a placa na praça, a mesma que foi retirada pelas forças do ódio. Desse modo, podem retirar quantas placas quiserem dessa praça, pois iremos recolocar outras tantas, enquanto possuirmos nossos corpos em pé, como árvore. E precisamos de mais corpos-árvores conosco, estar juntes em coletivo constrói saberes orgânicos e revolucionários. Como nos inspira a equação da rebelião de Élio Alves da Silva, poeta e pescador do Xingu, que é Eu+1+1+1+1:

“Eu sozinho não posso nada, eu sozinho só conto como um. Mas, se eu chamar mais um, já começamos a poder. E se esse um chamar mais um e mais um e mais... Aí nós podemos”.

Nessa manifestação, devido ao distanciamento físico pela pandemia, pensamos em realizar uma chamada maior para participação virtual. Contudo, não obtivemos adesão, ninguém enviou nada, me senti intensamente frustrado, sem qualquer motivação para seguir. E eis que me aparece o sorriso de meu pai, seu olhar esperançoso, suas mãos prontas para ação. Não poderia deixar essa chama apagar pela terceirização das outras pessoas das suas lutas e posições. Foi um verdadeiro e sincero Eu+1+1+1, com seres humanos e não-humanos que realmente querem estar nessa movimentação. E esses estão mais próximos do que pensamos, como a vizinha mulher negra de corpo presente e mascarado ocupando a Praça Marielle Franco.

Finalizando esta breve escrita, algo que considero pertinente compartilhar é que muitas vezes questionam a mim e a meu pai, por que colocamos o nome de Marielle Franco numa praça em Ipiabas, na resiliente Mata Atlântica? E para responder faço uma outra pergunta: quantas mulheres negras-históricas vocês conhecem aqui na nossa cidade? Elas existiram muitas vezes liderando quilombos, como Dandara e Tereza de Benguela. Mas suas histórias foram apagadas pela branquitude. E apenas os barões brancos reinam na narrativa única da nossa região. Por fim, é mais que essencial deslocarmos Marielle Franco para cá, na possibilidade de provocarmos rachaduras no passado negro invisibilizado. Nesses tempos de pandemia, gerida por um governo genocida e criminoso, é urgente uma mobilização de cada um de Nós para libertação de futuros.



Ipiabas, 14 de março de 2021