• Renan Vicente da Silva

A Praça Marielle Franco em Ipiabas: uma construção de memória

Atualizado: Nov 4



No hoje, dia 27 de junho de 2020, é aniversário de Marielle Franco. Faria 41 anos de respirar em coletivo. De luta pelas identidades minoritárias. De amorosidade para com o outro. Uma luta política-afetiva que forjava essa “mulher, negra, mãe e cria da favela da Maré”, como ela mesma se descrevia. Um lutar que ceifou sua vida em 14 de março de 2018. Uma morte para silenciar. Uma morte para desmobilizar. Uma morte para amedrontar. Contudo, ao matarem o corpo de Marielle, como um girassol, as suas sementes foram deslocadas pelos ventos aos quatro cantos do mundo. Uma de suas sementes caíram e brotaram em meu solo existencial. Essa germinação foi cada vez mais intensa ao longo do tempo. No decorrer da imersão em meus interiores. Da minha sexualidade enquanto gay. Do ser negro em uma sociedade racista. Do ser pobre nas relações de consumo capitalista. Assim, são mais de 2 anos sem sua presença material, mas me sinto envolvido por seu existir espiritual. Ao matarem o corpo de Marielle não sabiam que ela era semente que cria raízes em meu coração. E nesse aniversariar devemos construir memória. Nesse sentido, irei promover um resgate das lembranças da semente Marielle em mim.


Não me recordo bem o primeiro momento que obtive conhecimento sobre a resistência e resiliência de Marielle. Acredito que foi apenas após sua morte. Na leitura de uma matéria que falava sobre seu assassinato e fazia um resgate histórico das suas movimentações. Nesse dia estava indo para Juiz de Fora. Era 15 de março de 2018. Dentro do ônibus uma indignação e revolta tomou conta do meu corpo. Uma dor pela morte de uma pessoa, até então, desconhecida em minha vida. Depois houve uma discussão em um encontro do projeto de extensão sobre os impactos de sua morte em nós. Não consegui me expressar como desejava, pois nem eu sabia ainda o que esse morrer provocava em mim. Nos meses que se seguiram fui acompanhando de forma mais próxima as manifestações que exigiam legítimas respostas. Uma tentativa de aliviar uma outra dor, a da ausência de verdade. E, dessa forma, fazer justiça para com os assassinos e mandantes dessa violência extrema. É importante recordar que estávamos em um ano eleitoral. Uma das eleições mais radicais da história recente desse país. Já que senti em minha pele negra e gay um medo constante no caminhar pelas ruas. Nesse contexto, houve uma destruição da placa, Rua Marielle Franco, na onda bolsonarista figurada pelo então candidato ao governo do Estado do Rio de Janeiro (RJ), Wilson Witzel. Não poderia haver silenciamento diante desse ato de ódio. Desse modo, foi realizada uma movimentação em que foram distribuídas cerca de 1000 placas. E uma dessas vieram para meu lar. Permaneceu na porta do meu quarto durante um período. Até meu pai sugerir que deveria ocupar a nossa rua em Ipiabas. Um paraíso da resistente e resiliente Mata Atlântica.


Um ir além foi promover uma ocupação de um espaço próximo de nossa casa. De formato triangular e abandonado. Mas para meu pai havia algo muito potente e significativo. Ele possui um olhar poético. E assim começou a tecer a construção do comum. Um lugar que seria para nossa comunidade. O irromper de uma praça estava começando. Um meio para vivermos encontros dialógicos e afetivos. Para vivermos nossa infância no brincar. Para sermos outros em cada respirar. Meu pai queria fornecer o nome da semente Marielle, e assim nasceu, a Praça Marielle Franco. Foi inaugurada em 26 de outubro de 2019. Em uma das festas de dia das crianças realizadas pelo meu pai. Um dia muito emocionante que preencheu nossos corações. No decorrer dos dias e semanas foram brotando alguns balanços, uma gangorra e várias flores que acolhem os fluxos de seres humanos e não-humanos que adentram nesse espaço. Infelizmente, em fevereiro de 2020, um ato de ódio nos alcançou. A placa da Praça Marielle Franco foi covardemente arrancada. Isso me provocou uma tristeza enorme. Considerava meu lar um outro lugar possível. A realidade me mostrou uma verdade. O ódio contaminou nossa nação. É importante, nesse sentido, escutar Conceição Evaristo, escritora e poetiza negra brasileira, que nos salienta: “A gente combinamos de não morrer”. E não iremos nos render ao medo que disseminam. Vamos continuar em nossa luta pelo deslocamento do que é centro e periferia em nossa sociedade. A Praça Marielle Franco é centro. A Favela é centro. A Mata Atlântica é centro. São centralidades que habitam um esperançar com amor e união. As quais não se renderam aos anseios periféricos autoritários de uma força de ódio que produz morte. Precisamos continuar questionando com Marielle Franco: "Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?"


No agora consigo nomear os sentires e pensares que me preencheram quando soube da morte de Marielle. E uma palavra sintetiza sua luta política-afetiva: amor. Uma pulsão de vida que nos permite estar juntes. Ela me tocou com esse amor mesmo não tendo experiências e vivências compartilhadas presencialmente ao seu lado. Como é possível esse transbordar de amor promovido por Marielle? Considero a escrita de Eliane Brum, jornalista do ‘El País’, uma das respostas possíveis: “(...) Marielle Franco acolhia em seu corpo todas as minorias esmagadas durante 500 anos de Brasil.” (...) “Marielle carregava múltiplas identidades: negra, como é a maioria dos que morre; da favela (da Maré), de onde vêm os que têm menos tudo; mulher preta, a porção mais frágil e sujeita à violência da população brasileira; lésbica, o que a lança em outro grupo flagelado pela homofobia”. Essa multiplicidade de ser me encantou e envolveu. Além de materializar a filosofia Ubuntu que ecoava em suas falas: “Eu sou por que nós somos”. Minhas mais sinceras e humildes felicitações de aniversário. E como lindamente nos questiona, Anielle Franco, precisamos conhecer: “Quem foi Marielle Franco?” A construção de sua memória é essencial para plantar as sementes Marielles em outros solos existenciais.




Foto de acervo pessoal: Carlos Antônio da Silva (meu pai) e Eu no dia da inauguração, 26 de outubro de 2019.
Foto de acervo pessoal no local vazio do mural em que escrevemos: "Praça Marielle Franco/ Arrancaram uma placa, mas brotará outra em breve. Somos semente!" (A letra N está sobrevoando devido ao erro de ortografia para lembrar da minha humanidade).

Foto de acervo pessoal registrada no dia 10 de agosto de 2020.