• Renan Vicente da Silva

A Praça Marielle Franco em Ipiabas é um centro de vidas


Árvore plantada pelo meu pai na Praça Marielle Franco (foto do acervo pessoal)


No último mês, sofremos mais um ataque na Praça Marielle Franco em Ipiabas, no qual a placa foi novamente arrancada com todas as forças do ódio. O que tanto incomoda existir um local de memória como esse? Acredito que seja pela existência, apesar de rápida, mas muito significativa e representativa dos vários Brasis, transbordantes no corpo de Marielle Franco. Já escrevi em outros momentos sobre esse ser e estar no mundo, ainda tentando compreender sua potência alcançada, principalmente após sua morte material, porém não espiritual. Ela está presente em cada passo da luta para libertação de futuros, sinto sua presença aqui e agora. Algumas vezes parece que consigo escutar sua fala, apesar de nunca ter sentido sua existência presencial na minha vida. Sempre irei descrever essa experiência como algo extraordinário para mim, talvez seja esse o incômodo gerado pela lembrança de ti. Seu nome ecoa como uma proteção aos povos minoritários socialmente, como os negros, favelados, LGBTQIA+, indígenas e outras multiplicidades marcadas no seu território corporal. É isso que incomoda muitas pessoas reduzidas as vivências asfixiantes do mundo branco colonial, de viverem em apenas uma única perspectiva, sendo escravos desse modo de vida-morte existencial. Essa entristecida e angustiada sociedade conservadora se assume enquanto legitimada para arrancar a placa da Praça Marielle Franco, e mais uma vez tentar apagar e silenciar sua história.


Essas movimentações em nome da moral e ordem, conseguiram destruir material e violentamente duas placas. Contudo, como também escrevi em outros textos, não importa quantas placas sejam arrancadas, outras tantas nascerão e germinarão. Desse modo, uma nova placa será colocada nas póximas semanas, apesar das forças bolsonaristas pelas proximidades, não as tememos, pois se posicionar e lutar exige coragem. Esse ato de rebelião foi semeado por Marielle Franco, que ainda me faz continuar escrevendo, e auxilia meu pai na manutenção de uma praça em seu nome. Uma de suas falas questionadoras-inquietantes foi: “quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?” Me pergunto intensamente sobre como conseguimos seguir com nossas vidas, muitas vezes fúteis, enquanto muitos morrem para manutenção da sociedade de consumo. Diante disso, me recordo de Frantz Fanon, que cunha o termo “zona do não-ser”, não ser humano, sendo o espaço existente para os povos negros no mundo branco, dessa forma, não existindo humanidade podem morrer numa guerra interminável pela acumulação de dinheiro. Como podemos agir para libertação de futuros negros afro-diaspóricos?


Bom, a encantada Marielle Franco foi um corpo dissonante-dissidente que ocupou profundamente uma centralidade nunca imaginada na cidade colonial do Rio de Janeiro (RJ). Não apenas foi uma das vereadoras mais votadas no pleito eleitoral de 2016, mas também porque conseguiu provocar rachaduras insurgentes nas estruturas da Câmara Municipal carioca. Uma voz que representava os anseios humanos dos povos desumanizados, assim, ela foi muito além das ações institucionais parlamentares. Isso produziu o despertar de um outro ser e fazer político que organicamente alcançou corações e mentes para se posicionarem e lutarem por um verdadeiro bem viver. Em que as desigualdades, racial e social, não existam, mas sim prevaleça uma rede de solidariedade e cooperação mútua. Seu lema na campanha eleitoral foi, “Eu sou porque nós somos”, ideia central na filosofia Ubuntu, que Marielle conseguiu semear na prática durante suas breves e intensas movimentações como representante dos povos cariocas.


O espírito de Marielle está assentado no terreiro gramado e florido de nossa Praça, isso se tornou ainda mais evidente para mim, quando sua placa retorna para nosso reencontro. Meu pai a encontrou jogada e amaçada numa mata próxima de nossa casa. E com muito carinho, ele cuidou dela para restabelecer sua forma original. Agora existem duas placas vivas, que habitarão suas posições centrais, independente das mobilizações odiosas contrárias. Como canta, um mestre de jongo e caxambu, seu Cosme, numa composição sua: “Marielle mulher guerreira, a covardia a fez calar”. A covardia da política de morte contra os corpos negros foi quem puxou o gatilho da arma, todavia, seu morrer promoveu o nascer de sementes revolucionários nos quatro cantos do planeta.


Nas proximidades fluminenses, em um dos corações da Mata Atlântica, é urgente uma construção coletiva de vida no solo da Praça Marielle Franco, fluindo na possibilidade de diálogo dos saberes e viveres. No deslocamento para centralidade das presenças negras e indígenas do nosso território, por meio da circulação das histórias não contadas, a partir das vozes originárias, como do povo Puri que primeiro viveu em nossas terras. E no passado ancestral já foi uma nação indígena, como alerta Kandu Puri, no EP “KRIM” (traduz-se “sangue” na língua colonial portuguesa), mais especificamente com a música ‘Indígena Originário do RJ’, e destaco o treco inicial: “O sangue do meu povo // Raiz dessa terra// Presente de fúria// Passado de glória”. Esse sangrar contínuo dos povos indígenas, guardiões das florestas, precisa se estancado, ou a natureza, com suas outras possibilidades de vidas, irá desaparecer. É necessário rompermos com a narrativa única dos barões brancos cafeeiros-escravocratas, acumuladores de dinheiro por meio do escravizar e matar desses povos. Sendo a Praça Marielle Franco, um centro dessa possível transgressão para a confluência orgânica que necessitamos ir de encontro com as forças destrutivas do ódio colonial, já que apenas juntes conseguiremos colocar nossos corpos unidos enquanto barreiras vivas produtoras de vidas.


Nesse sentido, faço um convite para conhecerem e germinarem conosco na jornada de construção da Praça Marielle Franco, um território vivo que demanda corpos vivos para fortalecimento de si. Esse é um espaço, mais intensamente germinado por mim e meu pai, enquanto um ato de responsabilidade afetiva-social para semear um pouco dos despertares Marielles no Vale do Paraíba, em Barra do Piraí, no distrito de Ipiabas. E indo além de qualquer divisão político-administrativa, já que as fronteiras se diluem no soprar do vento que leva as sementes para os cantos mais desconhecidos, nos quais mesmo nas incertezas conseguem brotar e germinar. Essa é a nossa luta que anseia somar mais e mais pessoas, para ocuparem a Praça, sabemos as limitações dos tempos pandêmicos, entretanto, esse momento não pode nos deixar prisioneiros de nossas casas, desse modo, vistam suas máscaras PFF2 e coloquem álcool em gel nas mãos. Na impossibilidade de presença física, existem várias outras maneiras de colocarem seus corpos presentes, a virtualidade é um campo de disputa em intensa ocupação. Uma ligeira provocação que faço é a gravação de um vídeo com a seguinte frase: “Nós defendemos a Praça Marielle Franco em Ipiabas, porque ...” (complete com seus anseios, desejos e quereres. Em diálogo com as coletividades). Sejam pessoas criativas e imaginativas. É emergente um posicionamento e luta, ou o amanhã não existirá.



OBS.: Os vídeos podem ser enviados para o e-mail: renanvicente@minhaspalavrasescritas.com. E serão usados na criação do mural-virtual de corpos-vivos protetores da Praça Marielle Franco que será apresentado na colocação da nova placa.



Ipiabas, 02 de agosto de 2021