• Renan Vicente da Silva

A pandemia acabou?

Atualizado: Nov 4


um registro de aglomeração na praia do Emboré em Santos, no dia 30 de agosto de 2020 (foto: Fernanda Luz/AGIF/Agência de Fotografia/Estadão Conteúdo).

Neste momento alcançamos a triste marca de mais de 140 mil vidas perdidas, e outras que ainda irão ser ceifadas, então, começo questionando: qual é a prioridade que te faz sair de casa? O distanciamento social é uma estratégia de saúde pública promovida para evitar ao máxima a circulação do novo coronavírus em nosso meio, de nos proteger mutuamente das incertezas que esse agente biológico provoca em nossos corpos. E deveríamos permanecer fixos em nossas casas, em diálogo com o bem-viver coletivo. Entretanto, com o passar dos meses, para alguns de nós privilegiados, foi nascendo um sentir tedioso, desde o primeiro diagnóstico confirmado em 26 de fevereiro de 2020, de um homem branco da classe média alta vindo da Europa, que foi curado em um hospital privado. Nesse dia em diante, começamos a obter uma compreensão da crise sanitária em curso, mas essa consciência durou algumas semanas. Depois, foi descoberto que o vírus, possivelmente, estava conosco desde os tempos festivos do natal, ano novo e carnaval, como evidencia as amostras de esgoto, datadas de novembro de 2019, analisadas por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em Florianópolis. Devido nossa ineficaz logística de testagem, pela omissão do governo genocida, a verdadeira primeira vítima apenas foi reconhecida em junho, sendo seu óbito no dia 12 de março de 2020, a vida perdida foi de uma mulher que trabalhava como diarista e morava em uma das regiões mais pobres de São Paulo. Em apenas 15 dias desde o primeiro caso, ela foi infectada e morreu. Isso demonstra o quanto não possuímos até os dias atuais qualquer dimensão quantitativa, os números são subnotificados ou censurados pelo governo, e muito mesmo qualitativa, pois não sabemos oficialmente quais pessoas estão morrendo. Todavia, diante da desigualdade racial que transborda em nossa sociedade, são os mesmos corpos que sempre foram criados na ideia colonialista de raça inferior pronta para o abate, os negros.


Os corpos negros nunca conseguiram ficar em casa, pois precisavam suprir as necessidades fúteis da classe média branca em troca de sobrevivência. Assim, muitos se equilibraram nas bicicletas alugadas e motocicletas financiadas para conseguirem fazer algum dinheiro, em um trabalho extremamente precário, sem qualquer perspectiva de futuro, de amanhã. E principalmente as mulheres negras, as mães-pretas de Lélia Gonzales, uma das maiores pensadoras negras do Brasil, a qual afirma que essas foram e são as mulheres mais subversivas e resilientes de nossa população brasileira:


“Exatamente essa figura para a qual se dá uma colher de chá é quem vai dar a rasteira na raça dominante. (...) Ela, simplesmente, é a mãe. É isso mesmo, é a mãe. Porque a branca, na verdade, é a outra. (...) A branca, a chamada legítima esposa, é justamente a outra que, por impossível que pareça, só serve prá parir os filhos do senhor. Não exerce a função materna. Esta é efetuada pela negra. Por isso a “mãe preta” é a mãe.”

E continua:


“E quando a gente fala em função materna, a gente tá dizendo que a mãe preta, ao exercê-la, passou todos os valores que lhe diziam respeito prá criança brasileira, como diz Caio Prado Júnior. Essa criança, esse infans, é a dita cultura brasileira, cuja língua é o pretuguês. A função materna diz respeito à internalização de valores, ao ensino da língua materna e a uma série de outras coisas mais que vão fazer parte do imaginário da gente. Ela passa prá gente esse mundo de coisas que a gente vai chamar de linguagem. (...)
Por ao a gente entende porque, hoje, ninguém quer saber mais de babá preta, só vale portuguesa. Só que é um pouco tarde, né? A rasteira já está dada.”

Essas mães são obrigadas a continuar seus trabalhos na Casa Grande, cuidando e amando es filhes do senhor, para conseguirem fornecer alimento para sua própria família. A pandemia apenas desvelou com intensidade o mito da democracia racial, o qual foi construído em nossa sociedade racista na falsa narrativa de que possuímos os mesmos diretos, negros e brancos, isso na verdade é uma forma de evitar um colapso civilizatório decorrente de uma lucidez racial do ser negro, um contínuo medo das elites brancas. Um fato que corrobora essa afirmação, é a primeira morte de Covid-19 na cidade colonial do Rio de Janeiro, ser uma mulher negra, doméstica, que fornecia seus serviços para os patrões recém chegados de mais uma viagem ao exterior. Indo mais fundo na ferida colonial da branquitude, eles sabiam que estavam infectados, porém não se importaram, já que negro foi criado para morrer, é substituível por outro. Os corpos negros nunca tiveram o direito de viverem um distanciamento social.


Nos dias de hoje, observo com muita tristeza e revolta, uma parcela da população, principalmente, branca da classe média, passivamente retornarem para futilidade de suas vidas, indo para bares, restaurantes, festas. Sem qualquer responsabilidade social para com o outro, pois essas pessoas já possuem um serviço de saúde privado, minimamente, estruturado para recebê-las. No agora, quem morre é preto, pobre, favelado. Esses que estão sobrevivendo devido ao Sistema Único de Saúde (SUS), o mesmo que no início da pandemia salvou muitos da classe média, como vimos no hospital de campanha do Leblon, um dos únicos que efetivamente funcionou. Mas a memória desse fato merece um esquecimento, não podem falar que foram salvos, como eles mesmos dizem, por um sistema de saúde feito para pobres. O SUS é universal, equânime e integral, concebido para materializar o direito à saúde para toda população brasileira, e mesmo de outros países. É muito doloroso ouvir seu desmonte na boca fétida de uma classe média que prefere estar nas praia, do que em suas confortáveis casas. A necessidade insana de voltar a uma normalidade que aos olhos míopes do individualismo é o imperativo do momento atual. Não obstante, o filósofo francês, Bruno Latour, informa para cada um de nós o que os ventos pandêmicos estão trazendo:


“É aqui que devemos agir. Se a oportunidade serve para eles, serve também para nós. Se tudo pára, tudo pode ser recolocado em questão, infletido, selecionado, triado, interrompido de vez ou, pelo contrário, acelerado. Agora é que é a hora de fazer o balanço de fim de ano. À exigência do bom senso – “Retomemos a produção o mais rápido possível” - temos de responder com um grito: “De jeito nenhum!”. A última coisa a fazer seria voltar a fazer tudo o que fizemos antes.”

Pelo que tenho visto a nossa sociedade de consumo está retornando de forma acelerada aos mesmos comportamentos que nos colocaram nesta pandemia, a qual silenciou milhares de vidas. Sem qualquer questionamento seguem a multidão prontos para a morte, na espera da próxima pandemia. Sem qualquer compromisso existencial pelas vidas humanas e não-humanas. Somos seres destrutivos. Estamos queimando nossa essência juntamente com as florestas, talvez não exista amanhã, assim, pergunto: como vocês se sentem ao despertarem diariamente num mundo em chamas?


É importante reforçar que a pandemia do novo coronavírus não acabou, e não existe uma previsão imediatista de término. Uma vacina não surgirá de forma expressa, não se iludam com a corrida política em curso. Além de que, a vacina em si, não é uma bala de prata, mas sim uma estratégia de saúde pública para redução da circulação do vírus, como o distanciamento social. Dessa forma, se possui o privilégio de permanecer em casa, fique! Para reforçar esse comportamento coletivo de solidariedade, do distanciamento que salva vidas, em uma das minhas movimentações nas redes sociais, me deparei com uma música cantada e composta por um potente amigo, Anthony Matos, intitulada, Largaram o F, a qual compartilho na íntegra:

“A pandemia continua

E o que antes era errado

Estão achando ser normal

Tem tanta gente indo pra rua

mas enquanto uns se divertem

outros morrem no hospital

Não tô julgando quem labuta

quem precisa ir pra luta

Pra buscar seu ganha pão

Mas é que existe tanta gente

Que largou o F pra situação

Ei você ai que ta curtindo

E tá no bar

Você que desde sempre sem preocupar

Não se importou se tá com o virus ou não tá

Só quer aglomerar

Ei você aí que antes vivia a criticar

Falava tanto que deviam sossegar

Eu tô te vendo

Batido não vai passar

Ei o mundo gira

E a conta chega pra valer

Talvez um dia seja tarde pra entender

Seu egoísmo matou vários sem saber...”

Essas palavras poéticas precisam penetrar em nossos corações e mentes, enquanto um ato de afetividade para com o outro. Precisamos estar em cooperação mútua no atravessar dessa incerteza que nos domina, devemos florescer na coletividade para respirar no amanhã.


Indo para um caminho mais otimista, acredito que existem aprendizados no contexto que estamos vivendo, desse modo, não seremos os mesmos depois da pandemia. Estamos em um afetar sem precedentes, no experimentar do corpo que habitamos, um corpo que estava esquecido de qualquer preocupação. Nos dias atuais, estamos atentos constantemente em esconder nossos rostos nas máscaras, assim, aprendemos a sorrir com os olhos. Essa porta de entrada da alma está sendo a âncora de salvação da nossa humanidade. Precisamos realmar nossa existência, fornecendo sentido para cada amanhecer. Vamos aproveitar a oportunidade posta para alcançarmos nossas almas, em cada encontro com o outro?


Por fim, não se deixem serem sequestrados pela ditadura perversa do novo normal, o qual é um verdadeiro processo de negação da pandemia que matou e continua matando nossa sociedade humana. E para sentirem e conhecerem um pouco as vidas que foram perdidas, compartilho um encantador espaço reservado na preservação da história, o Memorial Inumeráveis. A construção de memória é central para não produzirmos mais pandemias de morte no futuro, e esse movimento deve acontecer, aqui e agora.


Referências:


1. GONZALES, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, v. 2, n. 1, p. 223-244, 1984.

2. LATOUR, Bruno. Imaginando gestos que barrem o retorno ao consumismo e à produção insustentável pré-pandemia. ClimaInfo, 3 de abril de 2020. Disponível em

https://climainfo.org.br/2020/04/02/barrar-producao-insustentavel-e-onsumismo/. Acesso em 28/09/2020.