• Renan Vicente da Silva

A morte da juventude moderna [série: ‘Euphoria’]

Atualizado: Mar 23


Olhar da juventude moderna (Foto: cena da série/ HBO).

Nesta escrita irei tecer algumas afetações diante da potente série, Euphoria (Sam Levinson, 2019), a qual nos desperta para uma sociedade imersa na virtualidade que foge de uma dolorosa realidade. Os jovens que nascem nesse meio são imersos em processos de sofrimentos criados por um sistema insustentável, que consome qualquer possibilidade de existência.


As histórias são contadas com um alto nível de detalhamento e um humor envolvente, sempre narradas pela protagonista da série. Assim, consegui ir adentrando nessas vidas que estão fortemente interconectadas, em uma cidade interiorana que poderia ser qualquer lugar no mundo globalizado. Essa padronização dos comportamentos demonstra que estamos cada vez mais asfixiando as futuras gerações nas caixas do passado. Em cenas com vivacidade e densidade, me senti imerso no mundo da juventude moderna. No qual as mídias sociais, uma das drogas mais danosas em minha percepção, tornaram-se falsas máscaras de oxigênio para continuarem respirando. Além disso, existem os dilemas próprios da juventude na sociedade capitalista, de estarem em uma transição para a vida adulta e suas responsabilidades. A morte é sempre tencionada como uma possibilidade mais acolhedora que a vida.


A diversidade é um ponto que considero interessante na série, pois aborda questões do corpo trans, gordo, feminino, lésbico. Apesar de não haver um debruçar na perspectiva racial. E ainda pior, observei um reforço de estereótipo no casal do negro com a branca, uma certa ideia de negação da negritude para caminhar no branqueamento. Precisamos promover discussões sobre as relações inter-raciais, aqui e agora. Sendo essencial estar presente em uma série que objetiva provocar pensamentos e sentimentos sobre nossa população jovem, que está agonizando dentro de seus espaços de privilégios. Por isso, também é necessário nos deslocarmos para nosso país, e observarmos como nosso jovens negros das favelas brasileiras agonizam sem ar pelos joelhos brancos das forças policiais. São duas realidades que se complementam e dialogam entre si.


Por fim, desejo fortemente que na próxima temporada ocorra uma ocupação negra com centralidade, além de continuarem promovendo uma significativa visão sobre as mortes subjetivas e objetivas que ecoam nas pessoas próximas de nós. Nossos jovens estão morrendo, não estão conseguindo cicatrizar suas feridas psíquicas na fluidez do mundo líquido moderno de Zygmunt Bauman. Somos responsáveis pelas vidas perdidas no silêncio dos lares, nesse último ato de sentido para muitas juventudes.

Ipiabas, 25 de outubro de 2020

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