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  • Renan Vicente da Silva

A Folia de Reis é uma cultura popular brasileira que precisa continuar viva

Atualizado: 6 de jan.


Fotografia de algumas pessoas foliões da Jornada Estrela da Guia de Vassouras - RJ, na Praça Marielle Franco em Ipiabas (acervo pessoal)

No dia de hoje, dia 06 de janeiro, é celebrado na visão católica-eurocêntrica, a vinda dos três reis magos ao encontro do menino Jesus. Essas três pessoas que foram desobedientes diante das exigências de Herodes, de entregarem o filho de Deus, a uma prematura morte. E com isso salvaram Jesus Cristo. Nos deslocando para cultura popular brasileira, mais especificamente no interior de Minas Gerais (MG) e arredores. Existe um sincretismo muito potente do catolicismo com os saberes locais. Em que toda narrativa histórica é recontada a partir do chão originário do Brasil. Assim, os reis tornam-se foliões, em sua diversidade e musicalidade, e o medo, se transfigura na imagem brincante dos palhaços.

Esta escrita visa fornecer uma imagem vivencial da existência da Folia de Reis na minha vida. Já que meu pai, seu Antônio, um artesão e artista singular das terras brasileiras. Faz a construção anual de presépios na Praça Marielle Franco em Ipiabas. Desse modo, fornece um convite para as pessoas foliões se assentarem pelos solos ipiabenses. Sempre me vi, num misto de sentimentos com a presença desse ritual em minha vida. Algo que apenas agora, fornece um sentindo ancestral, pois é uma retomada da cultura que é sagrada e sangrada. Todo ano, uma nova promessa é feita pelo meu pai, e de joelhos sempre agradece pelo cumprimento dela, com muito amar e adorar toda essa crença. Na qual também transborda numa esperança pelo bem-viver. Ao vê-lo de joelhos, frente a bandeira de Santos Reis, senti a verdadeira existência dessa fé, que vai além de nós. É uma espiritualidade mais que humana, a qual devemos reconhecer e acolher, ao invés de silenciarmos até desaparecer.

Nesse ponto, alcanço uma outra compreensão e emoção, pela pungência e exuberância da Folia de Reis. Sendo mais que urgente a construção de políticas públicas para manutenção desses patrimônios imateriais da humanidade. Ou não existirão num futuro próximo. Cada vez, ouço o quanto estão desaparecendo, pois tudo aquilo que não fornece capital é destruído. E faço uma breve comparação com o carnaval. Só é louvado pela capacidade de girar uma grande quantidade de dinheiro, pelo contrário, não existiria sambódromo e qualquer visibilidade midiática. Nesse sistema de morte tudo é dinheiro, ou nada. Dentro dessa ginga existencial, precisamos lutar para elaboração coletiva de financiamento para essa nossa cultura popular, que tanto ecoa e reverbera quem somos, enquanto povos brasileiros. Na capacidade divina em misturar, toda imposição colonial, e criar outras formas de expressões a partir do caos. Essa rasteira é feita pelos nossos mais velhos, faz bastante tempo, e nos cabe continuar nessa ginga pelas institucionalidades.

Devemos aproveitar esse momento de sopro neoliberal para dedicarmos energia numa revolução cultural. No fortalecimento de movimentações que já existem, e necessitam de ajuda para continuarem sobrevivendo nas próximas gerações. Seremos nós, dentro de nossas frentes de guerrilha, os guardiões das materialidades e imaterialidades, que verdadeiramente, costuram e remendam nossos Brasis.

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Ipiabas, 06 de janeiro de 2022



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