• Renan Vicente da Silva

A ancestralidade africana na centralidade [documentário: ‘Refavela 40’]

Atualizado: Nov 4


Um registro do sorriso negro acolhedor de Gilberto Gil (foto: divulgação/HBO).

Nesta escrita irei compartilhar algumas afetações diante da potente produção, Refavela 40 (Mini Kerti, 2019), um documentário em diálogo com o icônico disco de Gilberto Gil, uma verdadeira obra prima musical de resgate das raízes africanas. É um movimento muito significativo de construção da nossa identidade racial, de sermos negros em um país que respira racismo.


As imagens dos tempos passados, de um Gilberto Gil jovial, que para mim continua existindo em seus interiores, fornecem uma dimensão inicial da história de concepção do disco, assim, vamos para seu nascer na Angola, nas terras da Mãe África. No documentário somos direcionadas para uma imersão mais visual das palavras cantadas do disco, com as vivências contadas por todas as pessoas que construíram essa marca negra na música popular brasileira. As canções que compõem o álbum possuem um vasto vocabulário dos povos africanos, desse modo, me senti vestindo uma máscara branca, em não reconhecer a linguagem, sendo essa uma violência da colonialidade, já que nos é imposto apenas a língua branca, na tentativa de sermos humanos, minimamente aceitos.


No decorrer das cenas fui mergulhando mais nos meandros dessa discografia, a qual foi tecida em intensa consonância com a vida de Gilberto Gil, ele é as palavras poéticas musicais que escreve e canta. Possui um potencial criativo sem precedentes que nos encanta pela beleza negra dos arranjos e mensagens transmitidas. Não tinha ainda alcançado essa apreensão do seu trabalho até me colocar em escuta da sua vida musical. A trajetória de luta na libertação de um futuro da história africana, a qual foi sequestrada em um navio negreiro vindo como escrava nas terras brasileiras, até os dias de hoje. Contudo, precisamos aprender com Gil, e ecoar o grito de que a África é centro, nosso solo existencial está do outro lado do oceano Atlântico, resgatar as nossas raízes é um movimento urgente, cada dia me desperto mais para essa realidade.


Tenho certeza que um pouco de Gilberto Gil, com todos seus sentimentos e pensamentos, foi plantado em meu coração. Acredito que sua semente gerará flores na próxima primavera revolucionária que virá, iremos nos libertar da escravidão cultural que asfixia nossos corpos negros. E vamos conseguir juntes, pois como ele mesmo fala, “somos potência solidária”, dessa forma, resistiremos em união e afetividade.